
Uma superposição das imagens da Torre do tarô, ou “Maison-Dieu”, conforme representação do século XVIII, e das torres do WTC atacadas por aviões pilotados por terroristas.
Ninguém regula a América. Este é o título da música lançada em agosto de 2001, em clip das bandas Sepultura e O Rappa na MTV tupiniquim, exatamente quando Saturno se opôs a Plutão, isto é, um mês antes do atentado terrorista mais cinematográfico da história da Humanidade.
Sumário
Primeira Parte: Ninguém regula a América
Segunda parte: Mishima e Homer Simpson no mesmo Clube da Luta
À medida que a TV, naquela manhã de 11 de setembro, transmitia ao vivo e a cores a destruição das torres gêmeas de Nova Iorque, eu me lembrava da letra dessa música [leia mais abaixo] que versa sobre a arrogância americana e sobre o sentimento de impotência do mundo diante da impossibilidade de parar essa máquina que dita regras a todos, pobres ou ricos, devido ao seu esmagador poder econômico.
Verdadeira música de impotência furiosa gestando raiva frente ao fato de que realmente ninguém regula a América. Ao menos até aquele momento.
Antes de continuar, quero deixar claro que não sou antiamericano. Muito menos fanático por Tio Sam. Portanto, o que escrevo aqui são apenas considerações. Reflexões sobre o sentido do destino do mundo. Pretensões.
Nos escombros, o fim do tédio
As pessoas ficaram eufóricas. Sonhos e premonições faziam sentido. Nostradamus era devorado e suas palavras começaram a rodar freneticamente nas gráficas. Listas de astrologia se alvoroçaram. Textos foram escritos a toque de caixa e o sequestro da filha do Silvio Santos, dias antes, já parecia enlatado americano perto daquele acontecimento. A vida ganhara novo ânimo.
Os acontecimentos de 11 de setembro marcam o fim de um longo tédio histórico. Também pudera, nem todo dia caem torres redundantemente fálicas ou muros de Berlim. Parece ser este o poder do encontro entre Saturno e Plutão, quer seja em conjunção, quadratura ou oposição: destruição da velha ordem a favor do futuro a ser criado, a favor do inesperado e, com isso, o fim da monotonia jornalnacional.

George W. Bush, por Carlos Hollanda.
Ninguém regula a América/ Ninguém regula a América/ Satélites de cima vigiando todos os atos de rebeldia/ MST observado pela CIA/ Um avião cara de pau preso na China/ Painel de controle, cidades sem culpa/ Na sensação do protocolo de Kioto/ Carbonizado em plena chuva de armas exportadas sangrando no dólar / O dólar dos outros/ Coagulado e globalizado nas veias abertas/ De outra dívida externa (…) / Que segue na arrogância, independente de quem for o W. Bush de plantão/ Limite que engatilha um novo míssil sobre o céu de Wall Street (…) / Ninguém regula a América/ Ninguém regula a América. (letra: Yuka/ música: O Rappa)
Ola anti-USA
Dias depois, o mundo presenciou algo que surpreendeu a todos: a onda anti-USA.
Numa espécie de ola revoltosa, do México ao Irã, do Paquistão aos Estados Unidos (!), vimos bandeiras azul-vermelhas sendo rasgadas, bonecos-bush sendo espancados, ou em forma mais branda, o pedido de reavaliação de políticas externas do país que comanda este processo ao mundo livre s/a.
Acredito que, de certa forma, as pessoas guardam simpatia a quem ousa desafiar o poder. Parece que cada um de nós nutre o desejo de ser David derrubando o gigante Golias. Estilingue levando à lona um império. Maguila nocauteando Mike Tyson.
Todo mundo tem um lado Osama Bin Laden, e não há nada de novo neste velho desejo humano de transcender os limites. Em linguagem astrológica, essa vontade se traduz na tentativa de ir além da órbita de Saturno, o mais distante planeta visível a olho nu. Talvez seja por isso que tenham grudado em Saturno os significados de limite, castração, culpa, dor, karma etc, sendo prometido, a quem tentar ultrapassar seus limites, o castigo mais que merecido.
No imaginário greco-romano, ousar ser deus acabava em sede eterna, fome insaciável ou trabalho sem sentido.
Na astrologia medieval, Saturno — o Grande Maléfico — era o senhor dos infortúnios, das doenças e da morte. Acredito que na origem estava o fato de que essas experiências nos lembram que a finitude existe. É o limite marcando a carne.
Em outras palavras, o tempo nos lembra que no fim somos todos feitos do mesmo pó de estrela. Aliás, a caveira da morte da carta de tarô — perambulando na noite com sua foice — sugere Saturno, o Senhor Ampulheta.
Mas podemos perguntar: não é legítimo ir além de Saturno e ver o que está além do muro?
É aí que reside a ironia de Saturno: somente quando encarnamos, admitimos os limites e o medo, é que podemos ir além do conhecido. É quando o muro vira ponte para o mundo de Urano, Netuno, Plutão. Ou além.
Saturno ensina que alma, a gente ganha com o tempo.
Projeção cósmica
Depois de avistar, com os olhos da Ciência, Urano, Netuno e Plutão, muito dos significados atribuídos a Saturno migraram, agora sim, ao planeta mais distante de todos nós: o oculto e temido Plutão.
Não sei como isso acontece, mas o fato é que ficou a cargo de Plutão impor limites ao mundo globalizado. Somente Saturno não bastaria para vigiar o homem. Agora temos também Plutão para essa tarefa. E nos acontecimentos do dia 11 de setembro, ambos estavam lá. Assim como também na Primeira e Segunda Guerra Mundiais, na quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1929, no primeiro choque do petróleo, em 1973, e outros tantos fatos históricos importantes. Não há nada melhor para impor limites do que uma boa crise.
O encontro marcado com Plutão e Saturno é sempre dramático. Cruza de Nelson Rodrigues com Dalton Trevisan. Por que será que vemos fatalidade rodrigueana no céu quando o Senhor dos Infernos está presente?
Estamos cansados de dizer que os astros apenas sugerem, não agem. A gente sabe que o Olimpo está no céu — essa verdadeira tela de projeções —, mas o projetor de imagens está lá atrás, no escurinho de nossa alma. Mas o que querem as nossas almas? Será que querem ler Cecília Meireles, para variar? Ou apenas tirar uma carta de tarô?
EUA na cartomante
Se fôssemos tirar tarô para os Estados Unidos, com certeza sairia a carta da Torre, conhecida também como a Mansão de Deus ou a Torre da Destruição.
No Tarô de Marselha, a lâmina da Torre assemelha-se muito àquela imagem vista por milhares de pessoas no mundo todo: a aniquilação da torre, devido a um raio, e a queda de pessoas do alto da destruição.
Como nos EUA, tudo tem que ser exagerado, devido ao seu ascendente em Sagitário, as torres eram duas, as pessoas se jogando eram muitas, e foram necessários dois aviões. Pura megalomania, coisa de Guiness Book. Curioso que o outro planeta que pressionava o mapa dos EUA era exatamente Urano — o Senhor dos Raios —, junto à Lua radical, significadora da casa.
Mas qual é o significado da Torre? Segundo Irene Gad,
significa ruína, transmutação, desgraça, restrição do desenvolvimento prematuro. Quando todos os perigos parecem superados, a pretensão constrói uma Torre de Babel. O indivíduo imagina que se tornou divino, acredita que a própria meta foi alcançada; a torre é então designada A Casa de Deus, construída para celebrar a própria santidade ‘autopercebida’. Mas o orgulho é o pecado primordial e é, por isso, punido com a maior das inclemências: o raio faz desmoronar a torre e lança seus construtores ao chão. Tudo então chega ao fim. [Tarô e Individuação, Dra. Irene Gad. Ed. Mandarim, p.258.]
Gad, ainda, associa a Torre ao planeta Urano, que, segundo ela, “na melhor das hipóteses, é o grande libertador, aquele que desperta”. Como também, continuando, “sob a influência de Urano, podemos nos tornar tão absortos na excitação da descoberta e da experiência que podemos chegar aos extremos de menosprezo absoluto pela tradição e pela limitação humana”. [Idem, p.258-259.]
Em outras palavras, a Torre, quando aparece num jogo, sugere orgulho, falta de humildade, arrogância. Se por um lado a Torre é necessária para materializar “a presença de deus”, com o passar do tempo ela também impossibilita o frescor do inesperado. É quando “Deus” há muito mudou de morada.
Essa experiência está acontecendo com o povo americano.
E com isso não estou desculpando o terrorismo. Mas os próprios americanos terão que admitir: a prepotência chegou às raias da loucura.
Os EUA foram arrogantes ao não assinar o tratado de Kyoto (apesar de ser o país mais poluente do mundo), por recusar pagar dívidas à ONU, pela falta de interesse pelos conflitos no Oriente Médio, pela falta de responsabilidade de sua indústria farmacêutica com os doentes de AIDS do continente africano (colocando os lucros no lugar da vida), pelo constante imperialismo cultural com a sua gigantesca indústria cinematográfica, sem falar do seu protecionismo sem escrúpulos etc etc etc. O povo americano produziu muito da beleza do mundo. Mas com o passar do tempo fizeram do próprio umbigo o centro do universo.
Essa coisa de olhar somente para o próprio umbigo me faz lembrar de um desenho divertidíssimo dos Simpsons no qual a embaixada americana na Austrália armou toda uma tecnologia para que a água da descarga do vaso sanitário girasse no mesmo sentido em que gira nos EUA, já que no país dos cangurus a água girava ao contrário.
Se você ainda tem dúvidas sobre o excessivo orgulho americano, ouça a canção Lourinha Americana, do Mestre Laurentino, gravada pela banda Mundo Livre S/A, que diz assim:
Essa é para detonar o muro… É, pois o muro de Berlim foi abaixo e o mundo inteiro festejou. Agora, por que será que todo mundo fica indiferente a esse vergonhoso muro americano”? (…) “De qualquer ponto em que se esteja em Tijuana, se vê o paredão metálico de cinco metros de altura. O mesmo acontece em Mexicali, Sonoyta, Nogales, Agua Prieta, Ciudad Juarez, Ojimaga, Ciudad Acuña, Piedras Negras, Nuevo Laredo, Reynosa e Matamoros. Ao todo são mais de 3 mil quilômetros de chapas de ferro e cimento, postes com luzes, câmeras e sensores eletrônicos. Do outro lado, o mundo livre. Para entrar no México, vindo dos Estados Unidos, a liberdade é total. Segundo um estudo da Universidade de Houston, entre 1994 e 1998 pelo menos 1200 imigrantes morreram na tentativa de cruzar a fronteira e despistar a maldita migra. Muito menos, por exemplo, foi o número de pessoas mortas tentando atravessar o não menos monstruoso muro de Berlim — pouco mais de 800 em cerca de trinta anos.
A destruição da torre fez com que a gente voltasse a discutir essas questões. Como também arrancou o véu que não nos fazia ver que quase um terço do mundo tem umbigo muçulmano. Cultura esta que se baseia na tradição, representada pelo eixo Câncer-Capricórnio, Lua-Saturno.
Superman é sagitariano
Devemos lembrar que os EUA valorizam como autoimagem seu ascendente Sagitário. Portanto, detestam limitações humanas. O voador Superman, com seus poderes sobre-humanos, é a personificação de uma das faces do Centauro. Na carta astral do Homem de Aço, não há a realidade de Saturno ou de Plutão. Ele é imortal e, por isso, não reconhece a passagem do tempo. Já Batman, sua antítese, é Escorpião-Capricórnio. A batcaverna esconde-se na casa doze da carta americana, lugar que deve guardar reservas de kriptonita.
Na tese Batman — O Cavaleiro das Trevas do Zodíaco procurei mostrar que os EUA teimam em descaracterizar o Homem Morcego porque ele é a personificação da dor transformada em vingador.
Batman é mortal. Não é raro ele voltar ferido para a batcaverna, precisando da ajuda de enfermeiro do virginiano Alfred. Batman é um herói que em sua constituição admite a existência da perda e da dor. O verdadeiro Cavaleiro das Trevas é praticamente um depressivo.
Superman surgiu em junho de 1938. Portanto, no eixo Gêmeos-Sagitário, no eixo da autoimagem da carta americana. Batman surgiu em maio de 1939, portanto, no eixo Touro-Escorpião. No eixo 6-12 dos Estados Unidos, a da saúde e dos inimigos ocultos. A quadratura Saturno-Plutão também estava lá no céu quando Batman veio à luz. Quem não reconhece a dimensão que Saturno e Plutão representam, corre o risco de ser atacado por eles.
Marte ataca!
Mesmo que os EUA tivessem uma política exterior exemplar, ainda assim sofreriam fortes oposições, porque os seus valores culturais menosprezam a força do masculino. E Marte, quando é menosprezado, ataca. Estes acontecimentos chamam a atenção dos americanos para o modo de lidar com esta faceta do masculino: a do guerreiro.
Deixe eu me fazer entender. A cultura americana está baseada no alicerce da democracia: liberdade. Um valor Sagitário-Aquário por excelência. A liberdade é tanta que chegou, com o apoio tecnológico, a condições somente imagináveis em filmes de ficção científica. Mas acontece que ela chegou a atingir a nossa carne.
Na sociedade do individualismo, o consumo e a busca do prazer tornaram-se verdadeiros totens. Este é um tipo de fundamentalismo: sua igreja é a Liberdade e seu livro sagrado é o Prazer. Ou, em termos econômicos, sua igreja é o Mercado Livre e seu livro sagrado é o Lucro.
Na cultura da liberdade, podemos, inclusive, mudar de sexo. Isso significa que podemos romper com o primeiro sinal do destino: a anatomia. Sem falar que o homem não é mais necessário para a perpetuação da espécie. Os bancos de esperma estão cheios, e o clone humano já é uma realidade. Podemos concluir, portanto, que o homem foi perdendo valor dentro desse ideário.
A mulher também, mas com uma diferença: cada vez mais se valoriza socialmente a presença da mulher dentro da máquina produtiva. A mídia dá destaque às conquistas da mulher. Isso é valorizado, apesar de ainda não estarem à frente das grandes corporações.
Marte veio perdendo força cada vez mais dentro da cultura americana. Neste caso, aquela história de que Câncer (os EUA são Sol em Câncer) faz de tudo para tirar a potência do homem faz todo o sentido. E quem sabe a guerra não é uma maneira de restituir o valor do homem na cultura americana?

Quem sabe a guerra não é uma maneira de restituir o valor do homem na cultura americana? (George W. Bush visto por Carlos Hollanda)
Parte 2: Mishima e Homer Simpson no mesmo Clube da Luta

