
Durante mais três décadas Manoel Carlos foi o nome dominante da vertente naturalista da telenovela brasileira. Autor experiente, começou na antiga TV Tupi, adaptando para a telinha centenas de clássicos da dramaturgia universal. Já na Globo construiu uma obra consistente tematizando os pequenos dramas do cotidiano, quase sempre ambientados na mesma “bolha”: o bairro do Leblon e seu estilo de vida, assim como os valores da alta classe média carioca.
A carta astrológica de Manoel Carlos tem data conhecida — 14/3/1933, São Paulo — mas horário incerto. Sol e Vênus em Peixes, em oposição a seus dispositores Júpiter e Netuno em Virgem, destacam a sensibilidade apurada, a sintonia com a alma feminina e o protagonismo das Helenas — personagens que parecem tentativas de capturar diferentes facetas de uma mulher idealizada.
A leveza com que o autor conseguia apresentar os mais densos sofrimentos, assim como a elegância dos diálogos, das locações e do comportamento dos personagens, são totalmente compatíveis com Libra como signo lunar e descartam a possibilidade de uma Lua em Escorpião (possível apenas se o nascimento tivesse ocorrido após às 19 horas).
Por outro lado, a temática da ambição e da ascensão social também está presente em diversas novelas. As muitas Helenas não são mocinhas sonhadoras, mas mulheres práticas, determinadas e capazes de agir com lógica e planejamento. Três planetas em Virgem já sinalizam a importância do elemento Terra, e pode haver ainda mais: não me parece improvável um mapa para as duas da madrugada, com Ascendente em Capricórnio e Lua elevada em Libra na casa 10.
Aliás, a Lua está envolvida também numa quadratura T com Plutão e Urano, planetas que falam das grandes transformações coletivas. Foi esta a configuração que deu a Manoel Carlos as antenas que lhe permitiram rastrear as progressivas mudanças no comportamento da classe média brasileira. Neste sentido, sua obra consegue ter um olhar quase sociológico, mesmo num gênero que se define, antes de tudo, pelo caráter de entretenimento escapista.

Manoel Carlos – 14.03.1933 , sem horário conhecido – São Paulo, SP. Carta solar, sem casas.
Virgem-Peixes: a crônica do cotidiano com toques de tragédia
É fora de dúvida que o principal fator estruturante da carta de Manoel Carlos é a forte oposição que reúne nada menos que metade dos planetas no eixo Virgem-Peixes. Ocorre que todos estes planetas também ativam por conjunção, oposição ou quadratura nada menos que seis planetas da carta de fundação da cidade do Rio de Janeiro, em 1565. Esta impressionante sinastria cria uma sintonia visceral entre o autor (nascido em São Paulo) e a cidade onde escolheu viver.
Uma outra perspectiva para entender as oposições no eixo Virgem-Peixes é lembrar que estes signos têm muito a ver com o dilema essencial das muitas Helenas criadas pelo autor. Em sua dimensão virginiana, são mulheres práticas, que vivem realidades bem palpáveis. Na maioria, são independentes e com uma vida profissional bem-sucedida: empregada de escritório em Baila Comigo, secretária em História de Amor, dona de clínica de estética em Laços de Família, diretora de escola em Mulheres Apaixonadas, médica obstetra em Páginas da Vida…
Já em sua dimensão pisciana, a Helena arquetípica de Manoel Carlos tem uma disposição incontrolável para atos de abnegação a anulação dos projetos pessoais. Apenas dois exemplos, já que a lista é interminável: a troca de filhos em Por Amor para evitar sofrimento à própria filha e a adoção clandestina de uma criança com síndrome de Down em Páginas da Vida. Foi exatamente esta facilidade de transitar entre a leveza do Leblon e o sofrimento sem fim da tragédia grega que deu a Manoel Carlos um lugar único na teledramaturgia brasileira.
Leia também sobre a obra de Manoel Carlos:
- Mulheres apaixonadas, mas muito práticas – O mapa da estreia de uma obra de ficção permite identificar quais são seus grandes temas e de que forma tendem a ser materializados durante o desenvolvimento da narrativa. É o caso de Mulheres Apaixonadas, uma novela que não faz jus ao nome.
- A teoria dos tipos psicológicos aplicada ao Brasil e à novela das oito – Angela Schnoor aplica a teoria dos Tipos Psicológicos de Jung à novela Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos.


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