
Mural mostrando marcha de índios apresados por bandeirantes. Nos séculos XVII e XVIII as longas marchas a pé ou utilizando tropas de burros foram recursos vitais para a ocupação do interior, iniciada pelos bandeirantes.
Bem que os homens trazidos por Martim Afonso de Souza tentaram, mas a estreita faixa litorânea da capitania de São Vicente não apresentava, ao contrário do litoral nordestino, solos e condições climáticas propícios à produção açucareira. Além disso, Pernambuco estava muito mais próximo da Europa, do que resultava um custo menor para o transporte das mercadorias de exportação.
A vida nas terras da atual baixada santista não apresentava grandes perspectivas. Era preciso subir a muralha da serra do Mar. Lá no alto, a partir do colégio jesuítico fundado por Nóbrega e Anchieta, desenvolve-se a vila de Piratininga de homens rústicos, que tomavam à força as mulheres nativas. Com elas geraram um povo de mamelucos [*] que reunia a ambição aventureira do português à familiaridade com a natureza das tribos autóctones.
[*] Mameluco ou mamaluco — Mestiço, filho de índio com branco. No período colonial, os paulistas são frequentemente chamados de mamelucos ou mamalucos.
A economia era de subsistência. Não havia recursos para comprar os negros chegados da África, um luxo muito dispendioso para os bolsos locais. Apesar da ferrenha oposição dos jesuítas, a solução era apresar os índios e utilizá-los como força de trabalho na lavoura e na pecuária. E montaram-se expedições que precisavam avançar cada vez mais para o interior da selva, na medida em esgotavam-se as reservas de braços indígenas nas regiões mais próximas da vila. Ao contrário das expedições oficiais da coroa portuguesa — as entradas — estas eram financiadas e organizadas por particulares: são as bandeiras.
O planalto paulista funcionou durante todo o século XVII como um foco gerador de bandeiras que se espalharam em todas as direções. Este caráter centrífugo e expansor do núcleo paulista permite associá-lo de imediato com o princípio masculino presente nos signos de Fogo e Ar, especialmente Áries e Sagitário.
Em 1597 ocorre a conjunção Urano-Plutão em Áries. É sob este aspecto que o bandeirismo abandona o caráter defensivo que tivera até então (pequenas incursões nos arredores para combate e captura das tribos que ameaçavam a vila) e torna-se ofensivo, voltando-se cada vez mais para as vastas extensões do sertão. Durante todo o século XVII, enquanto ainda não se descobriam os grandes veios de ouro, o grande objetivo das bandeiras é o apresamento dos índios necessários ao trabalho na lavoura. Como afirma Sérgio Buarque de Holanda:
Possuir escravos índios constituía índice de abastança e de poder que seriam proporcionais ao número de “peças” possuídas. O regime servil era o único então compreendido pela mentalidade dos colonos.
De nada valiam as ordens promulgadas pela Coroa, garantindo a liberdade dos nativos (…). Seria permitida pelo rei a “guerra justa”, tornando-se legal somente a escravização do gentio [*] que assaltasse portugueses e índios pacificados. A guerra justa, seria fácil provocá-la! Simples pretexto que se tornou letra morta entre os sertanistas de São Paulo. Assim, foram burladas todas as disposições da Coroa.
[HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História Geral da Civilização Brasileira, Tomo I. SP, Difel, 1960.]
[*] Gentio: povos não cristãos, índios.
A botada dos padres fora e o rei que recusou a coroa

Amador Bueno, conforme retratado em livro de Aureliano Leite.
Contra a escravização pura e simples, levantavam-se os jesuítas, defensores intransigentes da integração social e econômica do indígena através da catequese. Os conflitos entre jesuítas e colonos vão num crescendo por quase noventa anos, até culminarem em 1641 com a “botada dos padres fora”. Foi a expulsão dos jesuítas do território paulista, seguida por uma precoce tentativa de proclamação do Reino de São Paulo.
O projeto só não foi levado adiante porque o “rei” escolhido pelo povo, Amador Bueno da Ribeira, recusa terminantemente a indicação. Assim, São Paulo livrou-se de seus próprios fundadores. O episódio corresponde ao trânsito de Saturno pelos últimos graus de Aquário, em conjunção com o futuro Ascendente do Brasil (carta do Grito do Ipiranga) e já ativando também o Plutão da carta de São Paulo.
Nos dois anos anteriores, quando as rivalidades foram-se acentuando, Saturno transitara sobre Sol, Mercúrio e, finalmente, Marte da carta radical de São Paulo. Ao mesmo tempo, Urano fazia a transição de Libra para Escorpião, ativando a Lua radical de 1554. O trânsito de Saturno é importante porque mostra uma ação restritiva (Saturno, o limite ou o impedimento) sobre um Marte que rege ou está no Ascendente da cidade.
Como a vila surgiu a partir de um colégio jesuítico, Marte simboliza exatamente este grupo fundador, ou seja, a comunidade (Marte em Aquário) dos padres da Companhia de Jesus. A ativação da Lua por Urano indica, por outro lado, o efeito liberador que a expulsão dos padres provocaria: a partir daquele momento, os colonos estariam mais à vontade para seguir sua inclinação natural em favor da ação apresadora através de meios violentos.
A grande consequência seria a expansão cada vez maior das fronteiras brasileiras, fruto da marcha dos bandeirantes para a exploração do sertão remoto. É a época de expedições de uma audácia inimaginável, como a de Raposo Tavares, entre 1648 e 1652, que se internou pelo Paraguai, chegou às encostas dos Andes, em pleno território espanhol, e acabou saindo na região amazônica. A lembrança dos bandeirantes deste período resiste até hoje no nome das estradas que saem de São Paulo no rumo do interior, como a Raposo Tavares, a Anhanguera e a Fernão Dias.
A corrida do ouro e a guerra da cobiça
Apenas em 1693 e 1694 são descobertos os grandes veios de ouro do interior da atual Minas Gerais, em Sabará (a lendária serra de Sabarabaçu, ou Sabarabuçu), em Caeté, no Rio das Mortes e em outras localidades. O ato real de 18 de março de 1694 garante aos descobridores a posse das minas, apenas com a obrigação de pagar à Fazenda Real a quinta parte do ouro descoberto.
Este momento, que representa a culminação dos esforços de mais de um século, é significativamente representado por um trânsito de Júpiter em oposição à Vênus natal de São Paulo. Plutão, significador de recursos subterrâneos ou ocultos, transita formando trígono à Lua natal paulistana.

Cena da Guerra dos Emboabas, autor desconhecido, século XVIII.
Contudo, logo os bandeirantes teriam problemas. Cumprindo a vocação Marte-Áries de abrir caminho para que outros aproveitem as novas possibilidades, os paulistas não terão muito tempo para aproveitar as riquezas recém-descobertas. Logo a notícia do achamento das minas espalha-se por toda parte, provocando um enorme afluxo de portugueses e de gente do Rio de Janeiro e da Bahia. Minas Gerais transforma-se num campo de batalha na chamada Guerra dos Emboabas, na primeira década do século XVIII.
A guerra, cujo resultado é adverso para os bandeirantes paulistas, corresponde à passagem de Netuno pelos últimos graus de Áries, provavelmente na casa 1 de São Paulo. Alguns anos mais tarde, a criação da capitania de Minas Gerais, com território desmembrado de São Paulo, é antecedida de pouco pelo primeiro retorno de Netuno a sua posição natal na carta de fundação da vila de Piratininga, em 1554.
A oficina de florestas e os deuses da chuva
As conquistas dos bandeirantes passam para as cobiçosas mãos da Coroa. E os rudes sertanistas, que já haviam por esta época dobrado o território do país, retomam seu destino de andarilhos, de desafiadores da selva, de abridores de caminhos que outros irão aproveitar. Em vez de Minas, agora embrenham-se por Goiás, por Mato Grosso…
E a energia inquieta de Marte, a capacidade investigativa da Lua em Escorpião, a força irradiadora do Sol em Aquário, todos os componentes que fizeram dos paulistas uma raça de pioneiros juntam-se outra vez para empurrá-los para mais adiante: novos locais remotos em que nenhum homem branco jamais havia pisado.

Outra cena da Guerra dos Emboabas mostrando uma incursão bandeirante em cidade da região de mineração.
É neste contexto que se revela plenamente o sentido da única quadratura a afetar o Sol na carta de fundação de São Paulo: é o ângulo Sol-Netuno, indicador de natureza visionária e quimérica, disposta a sintonizar com o sonho e agir em consonância com ele. E a figura mais netuniana de todas quantas varreram os sertões brasileiros naqueles dois séculos é a de Fernão Dias Pais, o caçador de esmeraldas, que atravessou rios e montanhas atrás das pedras verdes, perseguindo quimeras e miragens, sem jamais tê-las encontrado.
O velho caçador de esmeraldas sintetiza um componente importante da alma paulista e expressa a missão contraditória dessa terra de gente rústica, difícil e violenta. Deuses da névoa e da chuva que, ao perseguir farrapos de esperança pela imensidão do interior, acabaram transformando os sertões numa grande oficina em que se construiu o Brasil que conhecemos.

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