
Gregório de Mattos foi o primeiro poeta com obra significativa a nascer no Brasil. Acima: montagem com capas de três diferentes antologias que resgatam poemas que permaneceram quase esquecidos até o século XX.
Eu sou aquele, que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.(Aos Vícios, Gregório de Matos Guerra)
Muitos o consideram o primeiro poeta brasileiro. Na verdade, é o primeiro grande poeta nascido no Brasil, já que, pelo estilo, pela formação cultural e pelas inclinações pessoais, seria mais correto considerar Gregório de Matos no contexto da literatura lusitana. É considerado o maior nome do Barroco brasileiro. Sobre sua data de nascimento pairam algumas dúvidas, destacando-se duas possibilidades:
- 20 de dezembro de 1633, data adotada pela Academia Brasileira de Letras, da qual é patrono da cadeira nº 16; e
- 23 de dezembro de 1633, data divulgada pela própria Fundação Gregório de Mattos, órgão governamental mantido pela Prefeitura de Salvador.
A diferença, apesar de apenas três dias, é suficiente para permitir profundas diferenças astrológicas: a primeira alternativa, para 20 de dezembro, resulta num mapa com Sol em Sagitário e Lua em Leão (qualquer que seja o horário). Já a segunda caracteriza-se por um Sol no início de Capricórnio e Lua em Virgem. Um mapa com ênfase em Fogo e outro com ênfase em Terra. Qual dois dois parece mais provável, à luz da biografia do poeta? Vamos aos fatos.
Um gênio voltado para a provocação
Gregório fez seus primeiros estudos em Salvador, no Colégio dos Jesuítas — o único de então — e vai depois para Coimbra, onde se forma em Direito. Exerce a profissão em Lisboa, mas seu incontrolável apetite para a sátira cria atritos que o obrigam a retornar à Bahia. Em Salvador, vai trabalhar como tesoureiro-mor dos jesuítas, mas a vocação satírica cria-lhe novos e monumentais problemas.
Incompatibilizado com personagens poderosas da colônia, Gregório acaba degredado para Angola, o que na época representava um terrível castigo: a colônia africana era um local inóspito e distante dos meios civilizados, onde grassavam as febres tropicais e toda sorte de doenças infecto-contagiosas. Findo o degredo, retorna ao Brasil já bastante doente e submetido a duas proibições: a de colocar os pés na Bahia e a de apresentar suas sátiras. Em 1696, morre na cidade do Recife, aos 62 anos.
A seguir, vamos analisar resumidamente suas duas possíveis cartas natais.
Gregório de Matos, carta básica com Sol em Sagitário
A carta básica de Gregório de Matos, calculada para 20.12.1633, mostra o Sol no último grau de Sagitário recebendo a oposição de Júpiter em Gêmeos e a quadratura de Urano em Libra. Como não há registro do horário, utilizou-se o horário-padrão do meio-dia e tampouco há indicação de casas.

Carta básica de Gregório de Matos Guerra (sem casas), calculada para às 12h00 LMT de 20.12.1633 – Salvador, BA.
Sol em Sagitário é um dos indicadores clássicos do espírito satírico, da disposição bem humorada que não mede palavras e acaba ferindo o amor próprio dos mais suscetíveis. É um posicionamento associado à falta de tato (o tato está associado às mãos, regidas por Gêmeos, signo oposto a Sagitário).
Marte, no crítico signo de Virgem e em quadratura com Sol e Júpiter, ajuda a explicar porque Gregório recebeu o apelido de Boca do Inferno. É um aspecto de agressividade (Sol-Marte) e de comportamento imprudente (Marte-Júpiter), típico de quem não pensa duas vezes antes de “mexer em casa de marimbondos”.
Se Gregório nasceu antes das 21h50, sua Lua está em Leão, formando uma quadratura T com Plutão em Touro e Vênus em Escorpião. Uma Lua leonina tende a ser teatral, extrovertida, dramática e alegre. Sente-se à vontade chamando a atenção para si, buscando a luz dos refletores. Afligida por Plutão, pode indicar em Gregório a disposição obsessiva para um tipo de humor perverso e provocativo, que acaba trazendo consequências destrutivas.
O envolvimento de Plutão num aspecto tenso com os dois planetas que moldam no homem o sentido do feminino é sinal também de emoções intensas e de relações conturbadas com mulheres. Mesmo que desconsideremos Plutão, planeta ainda não descoberto no século XVII, resta a quadratura da Lua com Vênus (valores estéticos e afetos) posicionada em Escorpião (índice de erotização e sexualidade), como a indicar um homem capaz de extremos de paixão e de erotismo.
Tanto Vênus em Escorpião quanto Plutão em aspecto com a Lua remetem a sentimentos tumultuosos que se escondem sob a capa do aparente controle (Escorpião é um signo mudo e de paixões “subterrâneas”). Este conflito entre o sentir e o exibir é tematizado em vários poemas de Gregório, como no soneto:
Largo em sentir, em respirar sucinto,
peno e calo, tão fino e tão atento
que, fazendo disfarce do tormento,
mostro que o não padeço e sei que o sinto.O mal, que fora encubro ou que desminto,
dentro do coração é que o sustento,
com que, para penar é sofrimento,
para não se entender é labirinto.
Mercúrio no conservador e por vezes cáustico signo de Capricórnio reveste a poesia de Gregório de Matos com um tratamento formal e uma linguagem vazada nos padrões que na época eram considerados cultos e elegantes. Gregório cultivou os estilos cultista e conceptista típicos do barroco português, cheios de jogos de palavras, antíteses, paradoxos, raciocínios sutis e eruditas figuras de linguagem, de que lança mão abusivamente. Vejam-se as duas estrofes finais do mesmo soneto:
Ninguém sufoca a voz nos seus retiros:
da tempestade, é o estrondo efeito.
Lá, tem ecos a terra, o mar suspiros.Mas ai do meu segredo alto conceito:
porque não chegam a vir à boca os tiros
dos combates que vão dentro do peito.
Gregório de Matos, carta básica com Sol em Capricórnio
23 de dezembro de 1633 é a data de nascimento divulgada pela própria fundação que leva o nome do poeta, com sede em Salvador. O mapa daí resultante apresenta duas grandes diferenças com relação ao primeiro: Vênus provavelmente já se encontra em Sagitário (para qualquer horário posterior às 09h02 da manhã, LMT) e a Lua pode estar em qualquer ponto entre o final de Virgem e o início de Libra.
Por toda a biografia do poeta, que se notabilizou pela língua ferina e pela disposição crítica, ficamos com o horário especulativo de 10h00 LMT, com Lua no último grau de Virgem (o signo da crítica) e Vênus no primeiro grau de Sagitário. A Lua ainda estaria em órbita de quadratura com Júpiter em Gêmeos e em conjunção com Marte em Virgem, sinalizando um comportamento negligente quanto às consequências das pesadas sátiras que dirigiu aos poderosos da terra.

Por que a cidade de Salvador rejeitou seu poeta?
Para tirar a prova do mapa que melhor corresponde à turbulenta biografia do poeta, fizemos também a sinastria entre Gregório e a fundação da cidade de Salvador. Para isso tomamos como base não a data oficialmente aceita de 29 de março de (que não é a da fundação da cidade, mas sim a da chegada de Thomé de Souza — ou Tomé de Sousa —, o primeiro governador-geral). Adotamos o horário pesquisado por Alexey Dodsworth, no artigo A fundação de Salvador nas cartas do Padre Nóbrega.
A combinação entre o mapa da cidade de Salvador e o de Gregório de Matos — especialmente aquele calculado para 20 de dezembro, com Sol em Sagitário — não poderia ser mais reveladora. O crítico e agressivo Marte de Gregório faz conjunção com Urano no Fundo do Céu da cidade, um interaspecto realmente explosivo. A casa 4 é a das bases domésticas, e também daquilo que fica oculto entre as quatro paredes do que comumente chamamos de “recesso do lar”.

Sinastria entre Gregório de Matos – carta especulativa com Sol em Sagitário, de 20.12.1633 (círculo externo) e carta de fundação de Salvador (círculo interno, com casas).
Assim como as outras casas de Água — a 8 e a 12 — a casa 4 indica comportamentos que não gostaríamos que fossem revelados publicamente. No caso da capital da Bahia, o que fica guardado no Fundo do Céu é exatamente Urano, que, sendo corregente de Aquário na cúspide da casa 9 (o outro regente é Saturno), revela que a cidade mantém dois padrões morais: um, simbolizado por Saturno acima da linha do horizonte, é mais conservador e austero, enquanto o outro, representado por este Urano “escondido” no Fundo do Céu, é mais liberal e transgressivo.
O Marte de Gregório, como um instrumento agudo e cortante, literalmente espeta a intimidade da família baiana, pondo a nu o que realmente ocorria sob o disfarce da moral de superfície.
Como a casa 9 também é a dos eclesiásticos e a das lideranças intelectuais da comunidade, é fácil compreender como o inconveniente Marte de Gregório incomodou figuras de grande influência, o que acabou por contribuir decisivamente para sua sentença de degredo.
Quando utilizamos a carta de Gregório calculada para 20 de dezembro, com Sol ainda em Sagitário, mais dois fortes interaspectos aparecem: a Lua de Gregório na casa 3 da cidade (a casa 3 tem a ver com escrita e produção literária, assim como com problemas de vizinhança e boatos) formando uma forte oposição ao Plutão de Salvador na casa 9 (a repressiva moral dos poderosos locais, especialmente os padres). É evidente que a tagarela Lua leonina de Gregório tinha tudo para incomodar os censores do comportamento alheio.
O outro aspecto digno de nota é o Sol de Gregório em quadratura com o Urano de Salvador no Fundo do Céu, reforçando a ideia de que o “Boca do Inferno” tinha mesmo uma predileção especial por apontar o que havia de mais heterodoxo na vida íntima da sociedade local.

Representação da cidade de Salvador em 1631, dois anos antes do nascimento de Gregório: poucas ruas e escassa população. Apesar do status de capital, ainda era uma cidade provinciana onde as fofocas corriam depressa.
Já Netuno de Gregório, em Escorpião, faz oposição a Mercúrio, regente do Ascendente de Salvador. Mercúrio-Netuno em sinastria é um índice de comunicação confusa, de inconfiabilidade, de possíveis problemas gerados por fofocas ou por afirmações mal compreendidas. A dificuldade para o estabelecimento de um vínculo de simpatia entre a cidade e seu poeta amplia-se ainda mais pela oposição do Mercúrio de Gregório à conjunção Lua-Marte de Salvador: um aspecto de querelas verbais, agressividade e pouca disposição para o entendimento mútuo.
Não estranha, pois, que a cidade quisesse vê-lo longe, de preferência do outro lado do oceano. O temível Boca do Inferno não teve a condescendência dos contemporâneos. Foram precisos três séculos para que sua obra fosse resgatada pela Academia Brasileira de Letras e, enfim publicada, entre 1923 e 1933, recebesse o reconhecimento dos baianos e de todos os brasileiros.


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