Este artigo é uma continuação de Professor Zeferino, um menino de 91 anos. Reúne depoimentos de cinco astrólogos que de alguma forma conviveram com ele – Ana Maria González, Barbara Abramo, Carlos Alberto Boton (Beto Boton), Elizabeth Nakata e Fernando Guimarães (Nando Boston) – além de um vídeo de Alexandre Chut e o trabalho de compilação do editor de Constelar, Fernando Fernandse.
Ana Maria González: o espaço de trabalho do mestre
Professor Zeferino era um profissional que elevou a Astrologia a um grau de excelência pela competência e compromisso. E nos relacionamentos pessoais que ele desenvolveu mostrou um lado humano a ser imitado. Como a História se constrói por datas, fatos e relatos de experiências de caráter subjetivo, aos poucos ficamos sabendo a pessoa especial que ele era.

Zeferino com Alexandre Chut, 2018.
Fui levada à casa do prof Zeferino a convite de seu grande amigo Müller e companheiro de leituras e de cálculos astrológicos. Isso ocorreu há mais de trinta anos. O psicólogo e astrólogo Juan Alfredo Cesar Müller foi meu primeiro professor de astrologia. A biblioteca e sala de trabalho do professor Zeferino era comprida com uma escrivaninha central rodeada de algumas cadeiras e um sofá. Era lá que os amigos conversavam. Era ali também que estavam as prateleiras cheias de livros, uma bibliografia técnica certamente obrigatória na época. Eu apenas começava a estudar nos livros que conseguia a muito custo. Hoje percebo que poderia ter talvez me informado melhor a respeito daquela riqueza toda. Foram muitas visitas nessa casa e nas outras em que o Prof. Zeferino morou.
Era uma questão importante respeitar os horários disponíveis do mestre, que sempre tinha agenda cheia para atendimento de seus clientes. Ele tinha uma espécie de timidez que talvez procurasse diminuir com um interesse vivo no momento do encontro e na troca possível. Não titubeava para mostrar nos programas de astrologia as novidades tecnológicas que ele dominava tão bem. E manteve o mesmo entusiasmo enquanto descrevia o curso de caráter acadêmico que desenvolveu mais recentemente, já entrado nos seus oitenta anos de vida. Como trabalho final desse curso, ele escreveu uma monografia chamada Astro-Saúde e Homeopatia, na Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, em 2010. Ele precisava se colocar nessa tarefa? Talvez não, não fosse seu espírito jovem que sempre o estimulava a descobertas e à busca de novos conhecimentos.
A engenharia alimentou seu repertório matemático utilizado amplamente quando a computação começou a ser aplicada aos cálculos astrológicos nos idos de 1970 e 1980. Era uma pessoa agregadora para o desenvolvimento de recursos que seriam tão importantes para a prática de toda uma categoria profissional. Além disso, dedicou algumas décadas atendendo clientes a serviço de uma Astrologia viva.

Um Digicomp DR-70, idêntico ao famoso computador do Professor Zeferino. Observar as teclas com os símbolos dos planetas: trata-se de um dispositivo desenvolvido para cálculos astrológicos.
Seu dinamismo pessoal o faria parecer sempre um menino surpreendido pelas novidades. Precisava sim estar a par de tudo de novo que acontecia: era um pedido de sua alma geminiana. Dessa forma, alimentava essa especial fome por informação nas redes sociais também. Formou um grupo enorme de amigos com quem trocava dicas e dados especialmente nas áreas da saúde, mas não só. Esses contatos nas redes sociais recebiam as mensagens e posts que ele recolhia e divulgava de forma constante. Era sutilmente carinhoso e muito amigo. Eu poderia ter feito muitas outras visitas a ele. Teria tido mais tempo para aprender Astrologia e, principalmente, aprenderia mais a respeito de humildade, de atenção e de amizade.
Talvez minha memória tenha se enganado em algum detalhe daquele início tão distante no tempo. Mas não terá havido nenhuma falha nos sentimentos de respeito, admiração e carinho que sobram dentro de mim por esse grande mestre a quem todos os astrólogos devemos tanto.
Elizabeth Nakata: o anfitrião acolhedor
Tive muitos professores, mas poucos mestres. Sem dúvida alguma eu o coloco na segunda categoria – Mestre Zeferino – a quem sempre me dirigi com muito respeito e reverência, encantada com sua sabedoria e generosidade. Quando levei, a seu convite, meus alunos do curso de Astrologia Cabalística, pude ver os olhos dos alunos brilhando, e os dele também. Um mestre só se completa com alunos, e alunos só se encantam com mestres. Aliás, entendia de muitos assuntos! Particularmente, recebia suas mensagens com dicas de saúde, palavras de otimismo e reflexões. Pouco tempo antes de sua passagem, apesar de estar com a saúde frágil, me acolheu em um momento pessoal complicado, inclusive receitando medicação homeopática e, o melhor, abrindo sua casa e seu coração para me receber, como um mestre e pai acolhe a filha e aluna. Em outros momentos pude retribuir o carinho e atenção com aplicações de curas cabalistas para ele e a esposa. Para mim ele está no panteão dos grandes, que enobrecem a Astrologia, e para sempre estará no meu coração e no de tantos outros colegas.
Fernando Guimarães (Nando Boston): o amigo virtual
Ouvi falar do prof. Zeferino pela primeira vez quando estudava e trabalhava no Astrocenter da Rua Lisboa, São Paulo, escola de Marylou Simonsen, Beto Boton e Edgar. Sabia que ele assessorava na área de informática e software. Admiro muito os que têm formação diversa que a minha, em matemática, ciências exatas, tecnologia. Foi somente nas criações de grupos de astrologia do Facebook, nos últimos anos, [e não do Orkut] que conheci o professor Zeferino e troquei mensagens com ele, que sempre apoiava com entusiasmo e carinho minhas iniciativas em moderação de grupos especialmente profissionais e de Astrologia Mundial. Ficamos contentes de compartilhar também nossa terra natal e sotaque.

O mapa da data marcada para a estreia da TV Manchete, em 1983, não prometia nada de bom. Zeferino sugeriu ao presidente Adolpho Bloch uma troca de data, mas não foi ouvido. A Manchete estreou com imagem, mas com uma pane de áudio. A previsão se concretizava. Foto: Zeferino na inauguração de uma repetidora da Manchete, em 1984.
Era muito carinhoso e familiar, eu o considerava um avô, ele me chamava de filho. Trocamos confidências muito pessoais ao longo dos anos. Muitas vezes ele me ligava ao fone para longos papos e trocas, sobre a vida, astrologia, etc. Tinha a humildade de solicitar cromoterapia a distância [de meu grupo virtual] aos necessitados. Eu me sentia privilegiado. Nunca nos encontramos pessoalmente, e agora acho que é indiferente pela energia trocada e pela crença em vidas futuras. Ele via em mim o que ele tinha: excelência e dedicação, paixão. Vou sentir sua falta e seus conselhos, para sei que ele se junta a uma boa egrégora e continuará estudando e olhando por nós. Plantou sementes e sou grato.
Carlos Alberto Boton (Beto Boton): Zeferino, o pioneiro da TV
O Professor Zeferino Pina Costa (1926-2018) era engenheiro eletrônico e astrólogo desde tenra idade. Segundo ele, seu interesse pela astrologia começou aos 15 anos de idade. Foi diretor técnico em quase todas as redes de televisão nacionais, onde era querido e admirado por todos. Nos tempos da TV Tupi de São Paulo, aquela imagem do índio colocada no ar quando havia problemas técnicos foi apelidada de “chama o Zeferino”!

O indiozinho que a TV Tupi exibia quando ocorria algum problema técnico: “Chama o Zeferino!”
Na astrologia, sempre foi pioneiro e precursor de técnicas e ferramentas, pautava-se pela exatidão, e para isso trouxe ao Brasil o primeiro computador para cálculos astrológicos, um Digicomp DR-70 versão 1. Zeferino sempre usou e ensinou técnicas combinadas, sendo seu arsenal favorito além do mapa natal: Progressões Secundárias diretas e conversas, Revoluções Solares relocadas, Trânsitos sobre os mapas Natal e Progredido, o sistema Proluna, entre outros. Como pioneiro, foi também um dos primeiros (senão o primeiro) a realizar pesquisas com Quíron no Brasil, assim como muitas outras pesquisas que desenvolveu ao longo de sua carreira como astrólogo.
Zeferino sempre se pautou por um respeito muito grande pela comunidade astrológica, criando inúmeros amigos entre colegas, alunos e clientes. Seu bom humor e disposição incansáveis eram marcas registradas de seu atendimento astrológico, transformando clientes em fãs e seguidores. Fazia questão de oferecer críticas construtivas ao trabalho daqueles que o tinham em estima, e estimulava aos que com ele aprenderam, sempre com o carinho de um pai. Professor Zeferino deixa um legado de sabedoria, conhecimento, credibilidade e retidão. Sou grato em ter sido seu aluno.

Zeferino e Beto Boton.
Barbara Abramo: a luz do farol
Zeferino foi e seguirá sendo uma espécie de farol, que dava o sinal pra gente não deixar nosso barco muito à deriva. Respeitava diferenças que tinha com todos, e com fino humor e manejo diligente de práticas e técnicas, dava testemunho de como é importante ter base sólida de conhecimento. Nunca perdi a reverência por sua prática e técnicas, daí sempre até o fim o chamava de professor Zeferino. Até pouco antes de falecer, me mandava recados, leituras a serem feitas, dicas de saúde e de vida – além de tantas observações sobre Brasil e nossos rumos. Devo a ele a amizade e o debate amistoso de mais de quatro décadas, em que eu, navio às vezes a deriva, me aprumava com a luz de seu farol.
O último vídeo do Professor Zeferino
No dia seguinte à morte do Prof. Zeferino, o médico e astrólogo paulistano Alexandre Chut postou no Youtube um longo vídeo gravado provavelmente no verão de 2017-2018. a que deu o título de A última conversa. Apesar da extensão alentada (68 minutos) e de problemas na captação do som, é um documento visual precioso, pois permite constatar a vivacidade e a multiplicidade de interesses deste “jovem” de 91 anos. Aqui estão os dois últimos minutos, mas basta voltar ao início para assistir ao vídeo inteiro.