
O constrangimento do Duque
O filme nos faz sentir muita tensão ao acompanhar as tentativas que Albert, o então Duque de York, faz para falar em público. Um simples microfone ganha enquadramentos especiais, que traduzem o terror da palavra que não sai. A retórica era de grande importância no contexto daquela época, com o rádio como meio de comunicação fundamental da realeza para atingir a população. Nem em casa Albert escapa da gagueira ao contar uma história para as filhas na hora de dormir. Seu discurso é marcado pelo incômodo e pelo constrangimento. O personagem se divide entre o desejo não assumido de ser rei e o temor de falhar, por causa da sua limitação para se comunicar. Um autêntico Mercúrio em crise. Por intervenção de sua mulher, Elizabeth, entra em cena a figura do curador, o excêntrico terapeuta da fala, Lionel Logue. O filme mostra o relacionamento entre paciente e terapeuta, as resistências do primeiro e a determinação do segundo, e o processo para a cura do já então rei George VI.
NOTA: O nome completo do príncipe era Albert Frederick Arthur George. Subiu ao trono em 1936 como George VI após a abdicação de seu irmão, o rei Eduardo VIII, que trocou o trono pelo casamento com uma plebeia americana e divorciada. É o pai da atual rainha, Elizabeth II.
Quando Mercúrio nos aflige
Tanto o filme quanto o livro O Discurso do Rei trazem diversas questões que envolvem o planeta Mercúrio. Ele se faz notar na mensagem que existe, mas não é devidamente transmitida no momento em que é mais esperada – o que não significa falta de conteúdo –, na angústia diante do que não é dito, não só por parte do emissor como também do receptor, na defasagem entre pensamento e fala e nos lapsos. Os três primeiros signos do zodíaco também estão envolvidos. Gêmeos corresponde à oratória em si, ao ritmo da fala e à importância da respiração e dos exercícios “para falar”. As especulações sobre as causas físicas e psíquicas da gagueira geram novas reflexões. O problema começa no pensar, na tensão nervosa ou na articulação mecânica da palavra? Ao analisar o funcionamento de algumas aparelhagens do corpo, como a garganta e a boca, entramos nos territórios de Touro e Áries.
Albert é um personagem tenso, cheio de conflitos e dificuldades originadas numa infância com pouca liberdade para ser quem ele realmente era. Não lhe foi dado, por exemplo, o direito de ser canhoto. Seu Mercúrio foi obrigado a “fazer ao contrário”. Talvez por esta razão, personagem e filme tenham cativado tanto o público, por meio da identificação. Quando o planeta Mercúrio não exerce plenamente suas funções, provoca angústias de uma ordem muito peculiar. Não é o sentimento, mas a razão, o raciocínio, a expressão de conceitos e ideias que não fluem que provocam nossa inquietação. Há uma sensação de dúvida, consciente ou não, mesmo quando sabemos “que sabemos” algo. E, em consequência disto vem o “nó na garganta” e a hesitação.
Entender a natureza de Mercúrio
Existem diversas configurações que podem indicar dificuldades na expressão mercuriana. Por exemplo: se Mercúrio está guardado na casa 12, é possível que esteja sendo subutilizado. O planeta do intelecto na casa do escondido e da dissolução pode agir como um inimigo secreto, até ser decifrado. Às vezes é preciso que seja percorrido um caminho, construída uma ponte para o estabelecimento da comunicação. Faz-se necessário entender a natureza deste Mercúrio, conforme signo, elemento e aspectos envolvidos e tirá-lo do “armário”. Inseridos numa cultura que não valoriza o saber intuitivo, podemos desprezar as qualidades sutis de um Mercúrio nesta posição.
Também pode acontecer que Mercúrio esteja retrógrado. Ele nos traz, nesta condição, boas possibilidades a partir das revisões, ajustes e aprimoramentos que fazemos em nossas produções mentais. Isso só acontecerá, no entanto, se nos concedermos tempo para dar a Mercúrio este segundo olhar.
Outros fatores de incômodo podem ser:
- a briga entre o signo da casa 3 e os planetas que a ocupam, ou entre este signo e o signo de Mercúrio;
- aspectos tensos e restritivos afligindo Mercúrio na carta natal.
Esta última situação é a que ocorre no mapa de Albert, como veremos a seguir.
O Mapa do Rei
O livro O Discurso do Rei traz um provável horário de nascimento para Albert. Ele teria nascido em 14 de dezembro de 1895, às 3h30, em Sandringham, uma propriedade real perto de Norfolk, no Reino Unido. O Sol estava em 21º56 de Sagitário. O stellium na casa 1 fala sobre a sua forte necessidade de expressão. O ascendente faz uma quadratura com Júpiter, acentuando a expectativa sobre si mesmo. A Lua, conjunta com os nervosos Marte e Urano, leva à somatização das dificuldades emocionais. Albert sofria de uma terrível úlcera.

Rei George VI – 14.12.1895, 3h30 UT – Sandringham, Reino Unido. 000e30, 52n50. [Nota do Editor: Lois Rodden cita o horário de 3h05 como o correto de acordo com a certidão de nascimento, o que resultaria num Ascendente em 27° de Libra. ]
O perfil do terapeuta da fala

Lionel Logue
Lionel Logue nasceu em 26 de fevereiro de 1880, sob o signo de Peixes. Todas as referências a ele no filme, no livro e nas citações sobre seu trabalho junto a Albert fazem pensar em uma forte influência de Aquário e seu regente Urano. Sem formação na área científica e usando métodos não ortodoxos, Logue quebrou preconceitos e conseguiu um feito notável, curando o rei e estabelecendo com ele uma longa relação de amizade.
Uma verdadeira constelação
O elenco afiado chama a atenção em O Discurso do Rei. Albert é interpretado com riqueza de detalhes pelo virginiano Colin Firth, com direito a todas as sutilezas que o papel exige. Tão elogiado quanto ele, o canceriano Geoffrey Rush está impagável como Lionel Logue. As cenas em que Logue desbanca o rei e estabelece com ele uma relação baseada na igualdade valem o filme. A geminiana Helena Bonham Carter vive um personagem completamente diferente daqueles eternizados nos filmes dirigidos por Tim Burton. Sua Elizabeth “dá a liga” entre rei e terapeuta, de maneira precisa e eficaz.