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Um
olhar brasileiro em Astrologia
Edição 109 :: Julho/2007 :: Sexta-feira, 04/04/2025 - 06h29 |
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UMA LEITURA DE PAUL FEYERABEND A relação de poder entre
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Cristina Machado |
A condenação da Astrologia por muitos cientistas não é fruto da aplicação rigorosa de métodos de investigação, mas sim da imposição autoritária de um único sistema de pensamento. Quem afirma isso é o filósofo Paul Feyerabend, um dos arautos da nova filosofia da ciência.
Paul Feyerabend colaborou para a falência dos modelos normativos, desmistificando o método científico. Extremamente polêmico, principalmente por tratar de assuntos pouco usuais - como a astrologia -, para ele, a ciência não é o único e nem o melhor sistema de pensamento desenvolvido pelo homem, tendo sido alavancada a um estatuto de superioridade por forças históricas que decretaram o que deveria ser o padrão de conhecimento. Dessa maneira, o problema da demarcação entre ciência e não-ciência - como é o caso da discussão sobre a cientificidade da astrologia - tende a se tornar obsoleto, pelo menos do ponto de vista "puramente" epistemológico, passando a ser entendido como uma questão ético-política.
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A partir de 1962, com a publicação de A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn, começa a surgir um híbrido que reúne a função normativa [1] da filosofia da ciência e a função descritiva da história da ciência. Entretanto, a insuficiência disciplinar da filosofia da ciência já fora detectada por Kuhn, que, para entender como a ciência progride, substituiu a preocupação com a estrutura lógica pela histórica. A partir de então, torna-se muito difícil sustentar o limitado modelo normativo-demarcacionista, pois ele não dá conta de responder a priori o que é ciência, como indica a análise dos critérios de demarcação entre ciência e não-ciência propostos ao longo do século XX [2]. E se não é a priori que se define o que é ciência, não se trata, então, de um modelo normativo. Afinal, como ser normativo a posteriori? Cabe, portanto, uma abordagem histórica, descritiva, a posteriori, para se demarcarem os domínios científicos.
Paul Feyerabend, um dos arautos da nova filosofia da ciência, colaborou para a falência dos modelos normativos, desmistificando o método científico. Para ele, não há critérios absolutos de cientificidade e nem um método único para a ciência, mas sim pluralismo metodológico. Podemos entender o pluralismo como a possibilidade de se tomar cada coisa como aparece, tentando tratá-la em seus próprios termos. No caso da ciência, ela não se limita a modelos metodológicos, epistemológicos e ontológicos dados de antemão, e as apostas do pluralismo de Feyerabend são na liberdade e na criatividade humanas. Além disso, uma de suas principais reflexões diz respeito ao estatuto da ciência: o que ela tem de tão especial? Para Feyerabend, a ciência não é o único e nem o melhor sistema de pensamento desenvolvido pelo homem, tendo sido alavancada a um estatuto de superioridade por forças históricas, violentas, que usurparam o poder e decretaram o que deveria e o que não deveria ser o padrão de conhecimento. Dessa maneira, o problema da demarcação entre ciência e não-ciência tende a se tornar obsoleto, pelo menos do ponto de vista "puramente" epistemológico, passando a ser entendido como uma questão ético-política.
No contexto da querela normativo-demarcatória, o caso da astrologia é citado diversas vezes, de maneira geral como exemplo de pseudociência. Feyerabend, como veremos, é a voz dissonante, especialmente no texto "O estranho caso da astrologia". Taxado de relativista, assim como Kuhn e outros, talvez possamos entender Feyerabend e toda a nova filosofia da ciência como proponentes de uma nova forma de racionalidade científica: uma racionalidade contextualizada, quer seja associada a paradigmas (Kuhn), programas de pesquisa (Lakatos) ou tradições de pesquisa (Laudan). Num sentido mais amplo, uma racionalidade associada a uma cultura. Assim, em vez de um contraditório "tudo é relativo" (se tudo é relativo, então esta afirmação também é relativa), pois "o homem é a medida de todas as coisas", podemos pensar em algo assim: a comunidade é a medida de todas as coisas que lhe dizem respeito, pois é no seu interior que se definem os conceitos e que se tecem as redes semânticas que emprestarão significado ao mundo. Critérios, métodos, padrões e regras só fazem sentido, portanto, num dado contexto, pois só se constituem e também se modificam com o uso, não sendo estabelecidos a priori (Feyerabend, 2001, pp.56-57).
O problema do relativismo científico, ou seja, da não-existência de critérios intrínsecos à ciência que nos conduzam a uma escolha racional, universal e atemporal, leva-nos à seguinte questão: como justificar a ciência da maneira usual, com pretensões de verdade, universalidade e neutralidade, numa sociedade plural em que tanto verdade quanto falsidade podem ser explicadas racionalmente? Ou seja, se as verdades são datadas - o que é verdade aqui e agora pode não sê-lo amanhã ou em qualquer outro tempo/espaço -, então não há mais como justificar a ciência dessa maneira, pois os modelos normativos de filosofia da ciência, bem como quaisquer outros sistemas de pensamento totalizantes, foram colocados em xeque pelo pluralismo, que é fruto das noções modernas de liberdade e democracia. Nesse sentido, podemos, nos termos de Feyerabend, pensar num relativismo democrático (Feyerabend, 1981, pp.28-33) ou num pluralismo cultural, em vez de uma admirável monotonia nova (Feyerabend, 1987, p.273), na qual se impõem abstrações e estereótipos - numa palavra, uniformização -, em detrimento da criatividade humana, da diferença cultural e da abundância do ser [3].
Partindo do princípio de que a ciência se instituiu pela força, assim como a própria cultura ocidental [4], e não por sua pretensa superioridade epistemológica, metodológica ou ontológica, é possível entender, junto com Feyerabend, o exercício de poder da ciência sobre todos os outros sistemas de pensamento. E é disso que trataremos aqui, da arrogância do poder estabelecido em relação à astrologia, que, com o advento da ciência moderna, passou a uma condição de marginalidade, porque todas as apostas se viraram contra ela. Só para citar alguns fatos que ilustram essa postura impositiva: 1) a criação da Academia de Ciências por Colbert, em 1666, sem incluir a astrologia [5]; 2) o decreto de Luís XIV, em 1682, condenando a difusão dos almanaques astrológicos; 3) a proibição, a partir de 1710, da impressão das Efemérides e das tábuas de casas; e 4) o manifesto de 186 cientistas contra a astrologia, em 1975, que analisaremos mais adiante.
Dessa maneira, é possível esclarecer finalmente que a relação entre astrologia e ciência é uma relação de poder - uma força política -, bem como o problema da demarcação entre ciência e não-ciência, nada tendo a ver com critérios epistemológicos.
[1] Entenda-se função normativa como a perspectiva disciplinar da filosofia da ciência, com sua pretensão demarcacionista de delimitar o domínio da ciência e de definir como esta deve proceder para ser ciência.
[2] Grosso modo, os critérios propostos são: verificabilidade (positivismo lógico), refutabilidade (Popper), ciência normal (Kuhn) e ciência madura (Lakatos). Para mais informações, remeto o leitor à minha dissertação de mestrado Sobre a falência dos modelos normativos de filosofia da ciência - a astrologia como um estudo de caso (PUC-Rio, 2006), onde faço uma análise detalhada dos critérios de demarcação.
[3]
Em seu último livro, recentemente lançado no Brasil, A
conquista da abundância, Feyerabend se detém no que ele
chama de "conto da abstração versus a riqueza do ser",
ou seja, a tendência crescente, no desenvolvimento da cultura ocidental,
de usar abstrações e estereótipos, desconsiderando
o particular e o detalhe.
[4] Podemos pensar em forças mais violentas, como as Cruzadas, a catequização do Novo Mundo e a recente moda de impor a democracia, o modelo econômico e as suas respectivas formas de vida a outros povos, mas também em forças mais dissimuladas, como a difusão de uma visão de mundo uniforme e as práticas cada vez mais definidas por uma elite tecnocientífica que determina quem tem prestígio e poder na sociedade.
[5] Essa decisão política compõe o cenário de um "projeto" de modernidade, cujo ideal de reflexão autônoma do sujeito, é iniciado por Descartes. As formas de pensamento baseadas na semelhança - como é o caso de, pelo menos, parte da astrologia - não estavam incluídas nesse projeto (Foucault, 2000, p.10).
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