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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 111 :: Setembro/2007 :: -

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ASTROLOGIA E O SENTIDO DA REALIDADE

Nem psique nem mundo exterior

Gregório Pereira de Queiroz

A carta astrológica simboliza as coisas do mundo objetivo ou do mundo subjetivo? Buscar resposta para esta questão implica reconhecer o conceito de forças dinâmicas, que constituem um terceiro campo de realidade.

A qual das duas realidades, o mundo exterior e objetivo ou o mundo interior e subjetivo, corresponde mais apropriadamente aquilo que a carta astrológica descreve simbolicamente? Ou, ainda, será necessário rever os conceitos de realidade interior e realidade exterior para melhor entender o que a carta astrológica é capaz de indicar?

A importância de pensarmos sobre estas questões, e tentar a elas dar alguma resposta, está na correta aplicação dos símbolos astrológicos para a orientação pessoal. Quando interpretamos uma carta estamos falando da realidade interior da pessoa, de sua realidade exterior (aquilo que comumente se chama de 'destino') ou estamos falando igualmente destas duas realidades? Ou, ainda, até que ponto estamos falando de uma ou de outra?

Um segundo ponto importante destas questões é a seguinte decorrência: caso a carta astrológica mais apropriadamente corresponda aos fatos exteriores, e não à realidade interior, a Astrologia poderia fazer parte das Ciências Naturais, que também estuda e nos dá a conhecer os fenômenos do mundo exterior; ou seja, ela poderia ser avaliada dentro dos parâmetros da Ciência. Caso a carta astrológica corresponda mais apropriadamente à realidade interior, e não a fatos exteriores, a Astrologia faria parte da Psicologia, que estuda justamente a interioridade humana. A qual dos ramos de conhecimento, o dos fenômenos externos ou o das realidades internas, poderia pertencer a Astrologia?

A Astrologia e seu principal instrumento de conhecimento, a carta astrológica, descreve (simbolicamente) com exatidão tanto fenômenos do mundo exterior, como por exemplo mudanças climáticas, quanto características do mundo interior de um ser, como o temperamento de uma pessoa e suas predisposições intelectuais e emocionais.

Como classificar um conhecimento que tanto nos informa sobre o recebimento de uma herança, um evento exterior, quanto nos informa sobre um estado interior, um sentimento de desamparo e insegurança que atormenta continuamente?

A Astrologia parece não se encaixar na divisão bi-partida da realidade, e, na verdade, nega esta divisão - o que é experimentado na prática cotidiana de todo astrólogo, sem que este se dê conta, necessariamente, de que sua prática exige uma outra visão da realidade, distinta da divisão bi-partida.

Uma explicação costuma ser dada para essa direção dupla que encontramos na prática astrológica: tudo o que acontece dentro se reflete fora, assim como o que acontece fora se reflete no que vai dentro de nós. Entretanto, esta explicação não nos informa se a atuação daquelas forças indicadas pelos símbolos astrológicos ocorre no mundo de dentro, se ocorre no mundo de fora ou se ocorre em ambos. Assim, parece não haver um "lugar" definido na nossa ordem de mundo para aquilo que os astros simbolizam.

O problema primeiro destas colocações está na divisão bi-partida da realidade em interior e exterior, em 'mundo objetivo' e 'mundo subjetivo', como se esta divisão correspondesse ao modo como as coisas são realmente.

William James advertiu: "Interior e exterior não são coeficientes com os quais as experiências vêm para nós originariamente estampadas; mas são mais propriamente resultados de uma classificação posterior feita por nós por necessidades particulares".

'Interior' e 'exterior' são um acréscimo nosso à realidade, uma classificação que separa a realidade em dois palcos distintos, mas que não corresponde exatamente ao que a realidade é e nem corresponde a nada do que a Astrologia nos informa sobre a realidade. Esta nos informa sobre uma interpenetração entre interior e exterior, em primeiro lugar; em segundo, exige a existência de um terceiro palco, nem mundo interior nem mundo exterior, um 'lugar' que é tão dentro quanto é fora, o qual seria onde de fato ocorre aquilo que é simbolizado na carta astrológica.

Os astrólogos atuais conhecem aquilo que os antigos denominaram qualidades primitivas, Quente, Frio, Úmido e Seco [imagem à esquerda]. Estes são conceitos que indicam forças dinâmicas de expansão e contração, de plasticidade e resistência, as quais seriam a base de todos os símbolos astrológicos, em especial dos elementos, signos e planetas.

Com isso, afirmavam que os símbolos astrológicos são símbolos de forças dinâmicas, e não de fatos ou tendências psíquicas. Ou seja, são símbolos de dinâmicas que ocorrem nem no campo dos fenômenos exteriores nem da subjetividade interior, mas no campo das forças ou qualidades dinâmicas, um terceiro campo da realidade, distinto dos outros dois, mas cujas decorrências afetam tanto a interioridade humana quanto o mundo dos fenômenos.

Aquilo que está simbolizado numa carta astrológica não pertence propriamente nem ao mundo exterior dos fenômenos nem ao mundo interior da psique. Pertence a um terceiro palco, o das dinâmicas puras, no qual ocorrem as forças que os astros no céu simbolizam . Naturalmente, tais forças não provêem dos planetas ou outras configurações celestes; elas têm sua existência em um palco próprio, e estão representadas na disposição celeste do sistema solar - pois que este está igualmente sob a influência desse terceiro palco, desse mundo de dinâmicas puras.

Esta conclusão coloca a interpretação astrológica em um campo que lhe é próprio, no qual podem ser descritas as qualidades dinâmicas de um dado momento do tempo, através de um horóscopo. As forças que atuam na vida de uma pessoa são definidas astrologicamente sem poderem ser classificadas como forças internas ou externas. Suas decorrências serão tanto psicológicas quanto fenomênicas: o mundo das dinâmicas puras se estende para dentro do mundo físico e também para dentro do mundo psíquico.

É preciso ressaltar que aquilo que a Astrologia simboliza (ou sinaliza, se fôssemos nos valer da terminologia proposta) não diz respeito a coisas que de fora nos influenciam dentro, ou que de dentro se projetam para fora - embora este fenômeno de ressonância ocorra e se sobreponha àquilo que a Astrologia simboliza. Esta, mais propriamente, simboliza as qualidades dinâmicas do tempo, as forças que atuam a cada momento do tempo.

Este é um conceito desconhecido tanto das Ciências Naturais quanto da Psicologia. Algo que pode ser psique e fenômeno ao mesmo tempo não consta ainda desses dois campos de conhecimento. Já se sabe que matéria é energia, e vice-versa; que a luz, por exemplo, é tanto partícula quanto onda (matéria e energia ao mesmo tempo). Mas não se sabe que há algo que não é nem psique nem fenômeno e que, não obstante, co-habita estes dois mundos.

Assim como também é conceito desconhecido da Ciência Natural e da Psicologia que o tempo atua, que as qualidades de um determinado momento do tempo atuam sobre os eventos internos a nós e externos a nós. E não que eles atuam pela mera passagem do tempo, mas sim que o tempo porta dinâmicas diferentes que fazem a vida se mover de muitas maneiras em diferentes durações de tempo, segundo padrões bem descritos pela Astrologia.

Para dar um exemplo: costuma-se dizer que nada melhor do que o tempo para curar uma dor de amor; ou seja, o transcurso do tempo, o afastamento temporal da situação dolorosa costuma atenuar o seu impacto sobre a pessoa, e com isso a pessoa se "cura" da dor de amor. O tempo retratado pela Astrologia é bem outro. Em primeiro lugar, ele não tem sempre a mesma natureza: nem todos os momentos serão adequados para atenuar uma dor dessas. Em algum período determinado, esperar o tempo passar para que a dor diminua pode levar ao resultado oposto, e a "passagem" do tempo (que não é um dado neutro) acentuar ainda mais o sentimento amoroso. Outro período poderá não curar, mas transformar totalmente aquela dor em outra reação emocional, por vezes de modo surpreendente.

Estamos acostumados a lidar e a pensar sobre o espaço, muito mais do que a respeito do tempo. A dimensão na qual se dá a percepção interior-exterior é o espaço. Interior é o espaço "para dentro de mim", é "onde estou"; exterior é o espaço "para fora de mim", é "onde não estou". O tempo é uma dimensão de qualidade primordial totalmente diferente: todos compartilhamos sempre o mesmo tempo. Nossa percepção direta percebe que tudo compartilha o mesmo momento do tempo, a todo momento. O tempo nos une a todos os demais e a tudo à nossa volta: seja lá com o que nos relacionamos, compartilhamos o mesmo tempo. O espaço nos separa de todos e de tudo: eu estou aqui, ele está lá, inexoravelmente; eu e ele ocupamos o mesmo tempo, inexoravelmente.

Deve estar claro que a carta astrológica contém símbolos que não dizem respeito a nenhuma das duas realidades comumente conhecidas, mas cuja realidade, de uma terceira natureza, é inter-atuante com a realidade interior e a realidade exterior.

Assim, quando um cliente nos pergunta se determinado símbolo significa algo de sua vida interior ou um evento em sua vida exterior, a resposta correta seria lhe dizer que nenhum dos dois propriamente. O símbolo significa uma dinâmica que tem presença tanto a vida interior quanto os eventos exteriores.

Mais precisamente, deveríamos dizer que o símbolo significa uma dinâmica que abarca tanto a vida aparentemente interior quanto os eventos aparentemente exteriores à sua pessoa. Pois se os símbolos de sua carta astrológica se referem a um campo de dinâmicas que não se submete à divisão interior/exterior, então estes símbolos não podem ser assim classificados. Ou, dizendo de outro modo, nossa vida não pode adequadamente ser dividida entre eventos e psique: ambos são a mesma coisa no campo dinâmico retratado por símbolos astrológicos.

A Astrologia nos revela uma realidade diferente daquela que o pensamento comum nos ensinou.

Descrever forças atuando, forças que possuem certas características enquanto estado e dinâmica, é o que de mais aproximado do símbolo astrológico podemos descrever com palavras. Naturalmente, esta descrição de dinâmicas puras será de pouca utilidade para um cliente não-versado no assunto; para este é necessário traduzir em realidades objetivas e subjetivas. Mas, para o astrólogo, deverá ser claro que cada símbolo astrológico tem sua melhor tradução em uma descrição das dinâmicas puras, das qualidades primitivas: movimento mais expansivo do que tenso, contração plástica e acomodatícia, e assim por diante.

Esta visão de uma realidade feita de forças dinâmicas, ou ainda de linhas de força, foi utilizada também por Jung quando este definiu o conceito de arquétipo, que "poderia ser comparado ao sistema axial de um cristal, que pré-forma, de certo modo, (...) apesar de ele próprio não possuir uma existência material" ; nem uma existência psíquica, deveríamos acrescentar. O sistema de eixos e linhas de força é o que define o arquétipo, e não propriamente seu conteúdo ou sua forma. Assim são também os símbolos astrológicos. Como Jung baseou muitas de suas idéias da fonte hermética e astrológica, não é de se estranhar encontrarmos esta descrição tão astrológica para seu conceito de arquétipo psicológico. (O que não significa que a Astrologia se encaixe dentro da visão de mundo da Psicologia, mas apenas que alguns conceitos podem ser compartilhados entre ambas.)

Também na música encontramos uma questão semelhante, onde a divisão entre mundo físico e psíquico não corresponde à realidade que percebemos na música:

Os dois componentes, então, estão presentes - o físico, a nota acústica, e o psíquico, a nota emocional; mas a melodia, a música como a conhecemos, não está em nenhum deles. (...) O que faz a nota musical uma nota é o trabalho não do componente físico nem do psíquico, mas do terceiro, um componente puramente dinâmico, que os outros dois, comparados com este último, parecem se reduzir à função de disparador e efeito subseqüente: um processo físico que inicia um fenômeno dinâmico; este último reverbera em um processo psíquico. É difícil entender como os psicólogos musicais nunca viram qualquer coisa aqui que não uma estrutura bipartida, saltando das notas para a emoção, da emoção para as notas, em um esforço para explicar a relação entre as duas, mas que tenham perdido inteiramente o que é produzido pela ação do disparador e produz o efeito subseqüente, o processo dinâmico, o fenômeno propriamente musical.

A música se define pelo seu "componente puramente dinâmico", e talvez seja esta a razão de, ao longo dos tempos, Música e Astrologia serem conhecimentos sempre interligados: não apenas as proporções entre as notas da escala diatônica e as órbitas planetárias são praticamente idênticas, como demonstrou Kepler [imagem à esquerda], mas a natureza da música e a natureza daquilo que os símbolos astrológicos retratam é a mesma: a ação de forças em um campo dinâmico.

Daí que a realidade, como nos é mostrada pela Astrologia, talvez se assemelhe mais à realidade como nos é mostrada pela música: realidade movente, sem separação entre interno e externo, realidade que se afigura mobilizada pelo tempo.

Ao revermos desta maneira o conceito habitual de realidade, chegamos a algumas conseqüências práticas, a serem consideradas quando da leitura da carta astrológica, dando-nos uma visão realmente "astrológica" da realidade:

1. A análise astrológica não descreve eventos ou características psicológicas, primordialmente. Define estados dinâmicos que moverão situações e formas no mundo, assim como moverão o fluxo da psique.

2. Astrologia não é uma forma de Psicologia.

3. Um pedaço de chumbo, meus ossos, Saturno e uma inibição têm os mesmos constituintes dinâmicos. A composição destas coisas, embora tão díspares em suas formas e modos de existir, é dinamicamente idêntica. Naturalmente, o mesmo é válido para os demais planetas e tudo o que está sob sua regência, assim como os signos e aquilo que regem.

4. Os planetas não são "emissores" desses constituintes dinâmicos, nem mesmo são "símbolos celestes" que os representam simbolicamente, pois são eles próprios constituídos dessa dinâmica.

5. Uma análise "dinâmica" do mapa se faz necessária para a total compreensão da carta astrológica, e não de seus símbolos isolados. Daí necessitarmos de um método de análise da relação entre os símbolos, uma análise do "entre" os símbolos e não apenas deles por si mesmos. Daí a técnica de interpretação de Morin de Villefranche ser a que melhor retrata aquilo que a carta astrológica representa.

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