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 Edição 119 :: Maio/2008 :: -

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ASTROLOGIA TRADICIONAL

Os Mistérios na Astrologia Helenística

Clelia Romano

Casa Três, a casa Inter Mundos

NemesisA Casa Três, como casa cadente, é "inter mundos", representada pelo signo duplo de Virgem regida por Mercúrio que é Psico pompo. O que a alma tem que fazer? Fazer a viagem para o subterrâneo! A casa cadente dissolve a casa anterior e prepara para a Quarta Casa, o Hades. A Casa Quatro, segundo os gregos, é o lugar de Nêmesis (à esquerda, na visão de Albrecht Durer), a personificação da retribuição e da justiça.

Nos textos helenísticos a ação é práxis. E práxis, além de ser um assunto de Décima Casa, é um assunto de Terceira Casa. Práxis significa prática mas significa também atravessar espaços e viajar.

Por outro lado, irmãos são assunto de Terceira Casa, mas o regente da terceira e da doze é o mesmo [Mercúrio], o que significa que irmãos são aqueles que vieram com os mesmos propósitos e plano de agenda. Termos irmãos de sangue e irmãos simbólicos gerados ou não pelo mesmo útero.

Nas casas abaixo do horizonte a alma é pesada e avaliada até chegar à Casa Cinco e... saltar para a Casa Doze novamente, novos preparativos, outros planos de vôo, outra jornada que começará deste projeto.

Quando a alma passa através do Local da Necessidade (Casa Doze), ela está pronta para uma nova vida, uma nova "Bios". E Hermes dizia que esta "Bios" é suportada pela Segunda Casa, pela Práxis que é a 10º casa e pela Terceira Casa que é um lugar de viagens e também de sonhos!

A visão de casas que os gregos tinham era muito consistente mas força nosso pensamento a pensar simbólica e plasticamente. Desta forma, vemos que as casas correm tanto no sentido dos ponteiros do relógio como ao contrário, e o uso de casas derivadas é uma regra importante. A Quarta Casa tem a ver com ambas as figuras parentais, não apenas com o pai, e a Primeira Casa é a Décima a partir da Quarta: a ação de nossos pais no mundo foi ter filhos, visto que nosso Ascendente é a Décima Casa, Praxis, ação da Quarta, nossos pais. Assim a Quarta Casa representa o Hades e os pais. Representa também o local onde a alma é pesada, o resultado de toda viagem que passa pela balança e por Saturno, que agora representa Nêmesis. No Thema Mundi, que veremos a seguir, a Quarta Casa é o signo de Libra, onde Saturno se exalta.

A Quinta Casa é a fama póstuma, positiva ou negativa, e o que será feito de seus restos mortais, assim como as heranças recebidas dos pais. O significado das casas é misturado e é importante pensar nisso tudo sem descartar a priori tais novidades, pois elas são consistentes e com certeza exigiram dos sábios da antiga Grécia muito tempo de meditação em torno do destino humano face aos grandes ciclos e iniciações da vida que finalizamos com a Morte, pelo menos no que diz respeito à Zôo e à Bios atual.

O Thema Mundi

Demos um primeiro passeio pela filosofia astrológica helenística. Estivemos percorrendo um terreno onde o significado das casas é virtual e cada uma delas pode representar as mais variadas coisas, inclusive a jornada da alma na Terra, abaixo e acima dela. Para explicar melhor a questão filosófica e o Mistério subjacente às casas astrológicas faremos uso do Thema Mundi, um mapa hipotético sobre o nascimento do mundo.

Thema Mundi

O Thema Mundi, em que Câncer ocupa a casa 1.

Tal carta é muito antiga e foi construída na antiga Pérsia, a partir da história sobre o primeiro homem do mundo, cantado em poemas pelo grande Firdausi, que escreveu sua obra poética Shahnama unificando a historia persa em uma só linguagem [Hakīm Abol-Qāsem Ferdowsī Tūsī (935–1020) autor do Shāhnāmeh, o poema épico nacional dos povos de língua persa e de todo o reino do Irã.]. É dentro dessa obra que lemos a história do primeiro homem, baseado no mito da criação do mundo de Zaratustra (6º século a.C.). Keyumars, o primeiro homem, é denominado Gayomard no sagrado texto de Zoroastro, o Avesta. Pois Gayomard teria como mapa natal o Thema Mundi, tendo nascido com todos os planetas exaltados e morrido aos 30 anos de idade.

Por motivos históricos os gregos tiveram contato com os persas e com a astrologia como era praticada pelos babilônicos e persas, e passaram a usar o Thema Mundi para servir de base a seu entendimento filosófico e astrológico.
Como veremos, o Thema tem o Ascendente em Câncer e o Meio-Céu em Áries, o que parece coerente, uma vez que Câncer é o símbolo universal da geração. A escolha não é ao acaso. Nos primórdios da civilização persa os astrônomos perceberam que, ao invés de constelações e estrelas, havia um vasto buraco negro no céu, sem estrelas. Para alguns o formato redondo e grande desse buraco lembrava um imenso caranguejo, ou uma tartaruga, daí a idéia do Caranguejo, também coincidindo com o solstício de verão.

O Meio-Céu em Áries é bastante adequado, também, pois o Meio-Céu é onde desenvolvemos nossa ação às vistas do mundo. A Sétima Casa, que os gregos relacionavam à morte, teria o signo de Capricórnio, e a Quarta casa, ou mundo subterrâneo, o Hades, seria representado por Libra.

Os gregos explicavam as exaltações dos planetas através de desenhos geométricos. Os trígonos e hexágonos desenhados pelas casas em relação ao Ascendente do Thema Mundi eram regiões onde planetas exaltavam-se. Da mesma forma, as casas consideradas positivas para a "zoo" ou para a " bios" tinham planetas benéficos em exaltação.

Assim, as Casas Nove, Dez e Onze são consideradas bons lugares. No Ascendente do Thema Mundi, Câncer, Júpiter, o maior benéfico, se exalta. A Casa Nove no Thema Mundi, onde temos o signo de Peixes tem a exaltação do menor benéfico, Vênus, que faz trígono com o Ascendente. Esses dois planetas relacionam-se à "zôo", à manutenção da vida. A Casa Dez também é muito positiva para o Ascendente, pois é ali que a "bios" realiza-se e encontra sua completude, onde o homem atua sua vida: ali, no Thema Mundi, temos o signo de Áries, onde o Sol, ligado à visibilidade e fama no mundo, se exalta. E se ao Sol deu-se a Casa Dez, à Lua dar-se-á a casa Onze, onde está Touro no Thema Mundi. A casa Onze é a casa do Bom Espírito, fazendo um hexágono com o "horoskopus" e dando sustentação à Casa Dez.

Por ordem de importância, depois do primeiro "pivot", isto é, depois da Primeira Casa, temos a Décima, a seguir a Sétima e por fim a Quarta. Ora, a Sétima Casa é uma casa importante, pois está num "pivot", mas não é boa para o nativo. Ela se opõe ao Ascendente, é a casa onde Marte se exalta, no signo de Capricórnio do Thema Mundi: é a casa de onde vem o ferimento. Esta, no entanto é uma casa menos má que a quarta casa, o Hades, então a exaltação do menor maléfico é em Capricórnio na Sétima Casa, e a do maior deles, Saturno, é na Quarta Casa, quando "zôo" está destruído. Saturno, portanto, se exalta na casa de Nêmesis, a distribuição da justiça.

À Mercúrio foi dada a exaltação em Virgem, a Terceira Casa, pois ela faz sextil, (usando figura hexagonal) com o Ascendente. Ela é a menos ruim das casas cadentes.

A Quinta Casa, no Thema Mundi, é Escorpião e não tem exaltação nela, pois, embora faça trígono com o Ascendente, Escorpião é a queda da Lua, regente do Ascendente no Thema Mundi. Daí que nada pode ter exaltação na queda do regente do "horoskopo".

Com essas considerações esperamos ter dado uma pequena idéia da filosofia astrológica grega. Mais artigos virão sobre esse tema.

Saiba mais sobre Clelia Romano.

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