COP 15: Quanto mais quente melhor
De Fernando Fernandes em Dez 25, 2009 | EmAnálises | 3 feedbacks »
Bastam dois graus de aquecimento global para que países inteiros desapareçam, em função da elevação dos oceanos. A Conferência das Nações Unidas para a Mudança Climática - a COP-15 - era uma esperança, mas Estados Unidos e China, maiores poluidores do planeta, fizeram um papelão em Copenhague e tornaram a crise inevitável.

[Texto completo:]
O Brasil contribuiu com sua cota de confusão ao nomear como chefe da delegação uma ministra que, além de não se entender com os ambientalistas da comitiva, foi capaz de afirmações como: "O meio ambiente é uma ameaça ao desenvolvimento sustentável." Evidentemente, um ato falho. E, como todo ato falho, altamente revelador.
Contudo, Dilma Roussef não foi um caso isolado. A maioria dos líderes presentes em Copenhague usou a conferência mundial sobre as mudanças climáticas como palco para outros projetos, o que levou à indignação e ao desalento os grupos ambientalistas e os jornalistas que cobriam o evento. Refletindo o clima geral, a normalmente comedida Míriam Leitão escreveu em seu blog de Economia no jornal O Globo de 20.12.2009:
A reunião de Copenhague ficará na História como um momento de insensatez das lideranças do mundo. Em que se desperdiçou uma oportunidade de ousar e construir o futuro. Em que se escolheu uma resposta medíocre diante de um vasto desafio. (...)
O que eu vi acontecer diante dos meus olhos acho que nunca vou ver. Uma cobertura jornalística gigantesca, uma sucessão de inesperados, e um fim espantosamente triste. Os líderes não ouviram a ciência e não viram a história.
Já o teólogo Leonardo Boff escreveu no mesmo jornal, no dia seguinte, 21 de dezembro:
A humanidade penetrou numa zona de treva e de horror. Estamos indo ao encontro do desastre.
...) O grande vilão é o modo de produção capitalista, mundialmente articulado, com sua correspondente cultura consumista. Enquanto for mantido, será impossível um consenso que coloque no centro a vida, a humanidade e a Terra.
(...) Faz tempo que ele distorceu a natureza da economia como técnica e arte de produção dos bens necessários à vida. Ele a transformou numa brutal técnica de criação de riqueza por si mesma sem qualquer outra consideração.
Essa riqueza nem sequer é para ser desfrutada mas para produzir mais riqueza ainda, numa lógica obsessiva e sem freios.
Tentando entender o fracasso da conferência do clima do ponto de vista astrológico, é preciso considerar que os grandes movimentos da política e da economia são indicados por ciclos de planetas lentos, sendo que as conjunções exercem o papel mais importante. Nas conjunções são semeadas as novas condições que passarão por momentos de ajuste crítico nas quadraturas e oposições formadas pelos mesmos planetas. Assim, se temos no céu dois planetas lentos em aspecto tenso, eles estarão em sincronia com processos históricos cuja raiz poderá ser buscada na conjunção imediatamente anterior.

A conferência do clima foi vivida sob duas configurações envolvendo planetas lentos: a conjunção Júpiter-Netuno em Aquário e a quadratura de Saturno em Libra a Plutão em Capricórnio. A quadratura reverbera as conjunções anteriores, sempre marcadas por radicalização de posturas políticas, xenofobia, aumento de confrontos bélicos no mundo e um clima geral de intolerância, pouco propício ao entendimento. A conjunção Saturno-Plutão de 1947 correspondeu ao parto de Israel, Índia e Paquistão, três países que já nasceram envolvidos em sérios conflitos étnicos e religiosos. Testemunhou também o processo de gestação da nova China Popular, cujo regime comunista se afirmaria formalmente dois anos depois. A conjunção mais recente, de 1982, foi contemporânea da Guerra das Malvinas e da Guerra do Líbano, num ano em que a escalada de violência no mundo atingiu patamares muito próximos de uma guerra total.
Este ciclo iniciado em 1982 já teve dois momentos de tensão, em 1993/94, quando Saturno e Plutão fizeram quadratura, e em 2001, quando formaram a oposição. Em 1994 o panorama mundial viu-se abalado pela primeira guerra da Chechênia e pela guerra civil de Ruanda, onde as etnias hutu e tutsi trucidaram-se mutuamente e devastaram um dos países mais promissores da África. Mais de um milhão de refugiados tiveram de atravessar a fronteira e buscar refúgio no Congo. Já em 2001 foi a vez do ataque terrorista às torres gêmeas e da resposta americana, consubstanciada na invasão do Afeganistão. Osama Bin Laden e George W. Bush são dois ícones de Saturno-Plutão - o que já nos dá uma boa ideia da intolerância envolvida nesse aspecto.

O retrospecto permite compreender por que a COP-15 foi encerrada com resultados tão frustrantes, apesar das expectativas iniciais. Essas expectativas, aliás, guardam correlação com a conjunção Júpiter-Netuno, dois planetas significadores de grandes ideais, especialmente quando num signo de natureza social, como Aquário. Nada mais de acordo com a conjunção Júpiter-Netuno do que reunir todos os governantes do mundo para discutir, em paz, como superar um desafio planetário. Todavia, com Saturno e Plutão abrindo um conflito no céu no mesmo momento, a esperança diluiu-se na amarga realidade dos confrontos sem saída.
Haverá outra oportunidade? Sim, mas não antes de alguns anos, quando provavelmente o quadro climático já estará bem mais comprometido. No curto prazo, configurações conflitivas afastam a possibilidade de grandes entendimentos mundiais, especialmente em função da quadratura T entre Saturno, Urano, Júpiter e Plutão, presente no céu de 2010. A configuração envolve ao mesmo tempo nada menos que seis ciclos de planetas lentos, um dos quais tem relação direta com o nascimento, evolução e apogeu do capitalismo, desde o final da Idade Média: trata-se do ciclo formado por Urano e Plutão, planetas cujos encontros ditam o ritmo dos avanços tecnológicos espetaculares e dos grandes movimentos de concentração de riqueza necessários à expansão do sistema econômico.
A quadratura Urano-Plutão de 2010 reverbera a última conjunção, ocorrida em 1965-66, no auge da guerra fria. Naquele momento, os Estados Unidos disputavam palmo a palmo com a União Soviética a formação de grandes áreas de influência geopolítica. A disputa entre as superpotências levou a intervenções americanas em diversas regiões do globo, aprofundando as desconfianças entre Washington e o terceiro mundo.
A eleição de Barack Obama trouxe por alguns momentos a ilusão de que a política externa americana avançaria, dando lugar a mecanismos de cooperação mais eficazes. Não foi o que se viu em Copenhague, conforme observa Míriam Leitão no mesmo artigo de 20.12.2009:
O presidente Barack Obama saiu de Copenhague menor do que chegou: ele errou sistematicamente nesta COP. (...) Obama chegou tarde, tratou os outros líderes com desprezo, chegou sem estratégia e proposta. E depois vendeu uma versão edulcorada para a imprensa americana que, vergonhosamente, em parte comprou: de que ele teria feito um acordo, ele diretamente em Copenhague. Ora bolas!
A arrogância americana em Copenhague ecoa o isolacionismo americano que levou à escalada no Vietnã, em meados dos anos 60. Em nenhum dos últimos contatos Saturno-Plutão e Urano-Plutão os Estados Unidos se notabilizaram por atitudes de concessão ou de negociação aberta. Obama apenas segue o padrão, e as perigosas configurações astrológicas dos dois próximos anos não parecem muito favoráveis a esforços diplomáticos. O encaminhamento da questão climática fica para mais adiante. Por ora, quanto mais quente melhor.
3 comentários
Também não considero como referência "análises" da sra. Miriam Leitão, e me surpreende que você a considere como "normalmente comedida". Paradoxalmente, talvez sirva sim como um bom termômetro quando se trata de avaliar a participação norte-americana no evento, eis que, para chegar ao ponto dela criticar de forma veemente a participação dos EUA (dos quais ela é tão zelosa defensora...), é porque os caras pisaram mesmo na bola.
A melhor análise mesmo é de Leonardo Boff, que toca na questão central: o modo de produção capitalista como o principal obstáculo para superarmos a crise ambiental. Do ponto de vista astrológico, a quadratura Saturno-Plutão talvez pudesse ser bastante propícia para a implosão desse sistema, o que talvez não se mostre possível neste momento pela ausência da construção de sistemas alternativos globais ao sistema, com força social e política, de caráter socialista. Assim, a já antiga escolha que se coloca para a humanidade - Socialismo ou Barbárie - tende lamentavelmente para a 2ª opção. Eu disse TENDE, o que não quer dizer que acontecerá. Cabe as forças de esquerda em caráter mundial construirem estratégias adequadas ao atual momento, aproveitando a crise internacional, a permanência de governos populares, e o acúmulo dos movimentos antiglobalização capitalista mundo afora (aproveitando desses o pluralismo, o multiculturalismo, mas superando a falta de direção e a fragilidade organizativa e estratégica que vêm enfraquecendo o Fórum Social Mundial, por ex.), e construírem um projeto global distinto do capitalismo, não apenas do neoliberalismo.
Deixe seu comentário
| « O mapa do terremoto no Haiti | O menino Sean e o estilo Capricórnio de resolver conflitos » |
Astrologia é linguagem. E os acontecimentos são textos a serem interpretados.