Tibet: a região inóspita que faz a China balançar (Parte II)
De Dimitri em Abr 15, 2008 | EmRelações Internacionais | Comentar »

Na primeira parte deste artigo analisamos a revolta tibetana de 1959 e sua importância para a compreensão da convivência forçada entre o Tibet e a China. Agora iremos nos concentrar nos episódios desencadeados pelo último 10 de março, que representa o aniversário do levante ocorrido há quase meio século.
[Texto completo:]
Primeiramente, convém observar que o protesto pacífico de monges deste ano ocorreu com a intensificação da sextilha entre Júpiter e Urano, um dos aspectos mais importantes de 2008. A sextilha, ainda em curso, se deu exatamente sobre o Sol.

Ora, um dos significados mais evidentes da sextilha entre Júpiter e Urano é justamente a idéia de encarar o futuro com um otimismo voltado para iniciativas que levem ao progresso de uma dada condição e, principalmente, pelo sentimento de fazer parte de um grupo ou mesmo da totalidade universal. Este é um aspecto que está relacionado à crença na capacidade de mudar o mundo. No levante de 1959, Júpiter e Urano estão em sintonia, aquele em Sagitário [domicílio] e este em Leão [exílio].

Outra configuração que chama a atenção é o stellium entre Mercúrio, Vênus, Netuno e o Nodo Norte em Aquário. Temos ali a clássica afirmação do direito de pertencer a uma comunidade, a manifestação de uma identidade coletiva que, sem sombra de dúvida, é constituída por uma forte cultura espiritual [Netuno]. Vejam que Netuno em Aquário e a sextilha entre Júpiter e Peixes insinuam claramente a possibilidade de uma espiritualidade engajada perseguir seus objetivos. Em ano de Jogos Olímpicos chineses, a janela está aberta.

Em oposições com o Nodo Norte e Vênus, encontramos Saturno em Virgem. Elas acusam a repressão chinesa ao sentimento de identidade tibetano e representam o poder da censura de Pequim sobre o episódio e seus desdobramentos.

Observe, entretanto, a condição de Mercúrio e Netuno, que não se encontram dentro da órbita das oposições de Saturno. Mercúrio está exaltado e a conjunção com Netuno é exata. Há provavelmente um sextil da Lua, em Áries [signo de destaque em 1959] e, na outra ponta do stellium, Vênus e o Nodo Norte apresentam sextilhas com Plutão. Vê-se ainda que a Lua provavelmente está em trígono com Plutão. Temos aí o canal de expressão da indignação tibetana, além de seu caráter profundamente pragmático.

Tratou-se de um gesto impetuoso e de muita astúcia e, com as qualidades astrológicas para difundir uma efetiva movimentação global no ano das Olimpíadas. A perseguição da tocha olímpica pelos protestos mundo afora, tornam o sucesso do protesto pacífico do último 10 de março evidente. E a isto a China não vem conseguindo censurar ou reprimir, excluído, obviamente, seu próprio território.

Há o chamado Retângulo Místico entre Vênus-Nodo Norte, Saturno, Marte e Plutão. Esta combinação de sextilhas, trígonos e oposições reafirma o alcance e o sucesso da iniciativa dos monges em março último. Note que Marte oposição Plutão é um aspecto muito violento e contundente. A natureza do protesto inaugural, no dia 10 de março foi especialmente pacífica. A prisão dos monges envolvidos é que, no dia seguinte, deu início à violência entre tibetanos, a etnia Han e as forças de Pequim.

Vemos que o Retângulo Místico marca a sublimação, no dia do protesto inaugural, das características negativas da oposição Marte-Plutão, sem perder a essência de sua força e contundência revolucionárias. De modo algum a violência mancha a intenção inicial dos monges, assim como a censura e repressão chinesas são parcialmente incapazes de conter o movimento já em curso. A oposição é exata.
Tibet e China, hoje
Passemos o foco para a assimilação do evento de 10 de março e de seus desdobramentos pelos chineses.

Uma conjunção entre Sol e Urano no signo de Peixes tem enorme potencial de ação afirmativa no âmbito espiritual e político. A oposição que ela aplica a Saturno da China pós-revolução revela a ameaça representada pelos protestos tibetanos (e globais) sobre a ordem chinesa. Lembrando sempre que Saturno e Urano são regentes do mapa chinês.

Vê-se ainda um forte trânsito planetário pela casa I da China e a ênfase nas casas I e VII indica a temática da alteridade dentro do vasto território chinês. Mercúrio, Netuno e para alguns, Quíron, estão em oposição a Plutão. A revolta subseqüente à prisão dos monges e a intensificação da movimentação global, que envolve a perseguição à tocha olímpica, desafiam o poderio chinês, num momento extremamente delicado que é a iminência dos Jogos Olímpicos. A censura (oposição de Saturno em Trânsito a Vênus-Nodo Norte e a oposição entre Saturno da China e Mercúrio-Netuno) é um dos aspectos mais evidentes relacionados aos desdobramentos do episódio [casas angulares].

O destaque de Netuno em Aquário e Urano em Peixes no mapa dos protestos do último 10 de março insinua a relação do episódio e os fatos que se seguiram com a Recepção Mútua entre os planetas em questão. Caso clássico de mistura entre religião e política e entre luta pela liberdade e espiritualidade, o exemplo tibetano parece, de fato, possuir grande sintonia com a época em que vivemos.

Nas duas outras pontas do Retângulo Místico temos a oposição entre Marte e Plutão. Marte está em conjunção a Urano da China, um trânsito ao mesmo tempo desafiador para o governo chinês e que dá margem para reações violentas da parte de Pequim. A entrada de Plutão em Capricórnio marca o início da intensificação da oposição a Urano em Câncer. Em seguida, haverá quadratura para o Sol em Libra. O regime chinês, a partir de agora, se verá cada vez mais diante de uma encruzilhada.

A China -país mais populoso e a nação que mais cresce no planeta- promove um verdadeiro desastre ambiental com a queima de carvão e resiste a mudanças mais efetivas dos pontos de vista político, social e das relações internacionais. Fadada a ter de interagir mais e mais com o resto da comunidade global na medida em que sua importância se amplifica, tenta controlar a circulação das informações num mundo esquadrinhado pela internet e as demais mídias. No médio e longo prazos, o regime chinês corre riscos.
O Povo contra o Dalai Lama?

Uma questão pertinente é observar os motivos que levaram os desdobramentos dos protestos do último 10 de março a descambarem para a violência. Ainda que basicamente as informações sobre a agressividade dos tibetanos neste episódio provenham de órgãos de informação chineses –passíveis de muita desconfiança-, convém discuti-las.
Com a prisão dos monges após os pacíficos protestos de 10 de março, no dia seguinte Lhasa, e em seguida o Tibet e regiões vizinhas, ingressaram em uma espiral de ataques, distúrbios e vandalismo, com a contrapartida da repressão chinesa.

Posto que os monges foram confinados nos mosteiros pelas forças chinesas após um protesto considerado pacífico, parte-se do pressuposto de que a violência começa aqui. Os distúrbios cometidos pelos tibetanos foram uma reação a essa represália.
Como vimos anteriormente, o único aspecto concreto do Sol no levante de 1959 é uma quadratura com Marte em Gêmeos. Na data inaugural dos protestos de 2008, a presença de Urano junto ao Sol estimula essa quadratura. No dia 11 de março –quando os tibetanos reagiram às prisões- a conjunção Sol-Urano era mais exata ainda, criando um ambiente propício para reações descontroladas.

Outro aspecto decisivamente importante é a oposição entre Marte e Plutão. Ela incide diretamente sobre o mapa de 1959 ao envolver Mercúrio em Áries e Saturno em Capricórnio. Já vimos que Mercúrio em Áries de 1959 está relacionado ao grito tibetano contra a ocupação e a convivência forçada com os chineses. Saturno em Capricórnio, por sua vez, representa tanto a coesão cultural dos tibetanos, baseada em sua religiosidade [que põe limites à agressividade de Marcúrio em Áries], como também a força do inimigo, o Estado chinês. O protesto de 2008 traz Marte em quadratura com Mercúrio e oposição a Saturno. Este ano, o “grito” tornou-se mais alto [Marte-Mercúrio] atingindo não apenas a “ordem chinesa”, mas a própria natureza dos princípios da cultura tibetana.
Plutão, em Capricórnio, está em conjunção com Saturno e em quadratura com Mercúrio, criando uma tensão ainda maior em relação ao argumentado no parágrafo acima. Além de amplificar a veemência dos protestos [Plutão-Mercúrio], a conjuntura parece permitir uma mudança ou transformação envolvendo a própria tradição tibetana [Plutão-Saturno].
Por fim, a quadratura entre a Lua em Áries e Júpiter em Capricórnio do dia 10 de março também é um trânsito que predispõe a reações mais exaltadas. Ela sugere a possibilidade de divergência entre a iniciativa popular [Lua] e o líder espiritual tibetano, o Dalai Lama [Júpiter].

Como sabemos, a retórica do Dalai Lama é essencialmente a da não-agressão. Nos últimos tempos, o líder religioso havia deixado de pregar a independência do Tibet para tornar possível barganhar junto aos chineses maior autonomia e liberdade religiosa. O fato é que os jovens rebeldes tibetanos parecem demonstrar impaciência com o próprio Dalai Lama e sua atitude “moderada”. O líder tibetano ameaçou renunciar caso a violência continuasse. Este impasse pode ser sintetizado pela oposição de Marte em Câncer [2008] a Saturno em Capricórnio [1959], pela conjunção de Plutão [2008] ao mesmo Saturno e pela quadratura Lua-Júpiter [2008]. Neste caso, a intensificação da conjunção entre Plutão e Saturno [2010-11] representa um risco para as autoridades tradicionais tibetanas.

A imprensa internacional registrou perseguições e ataques de tibetanos à minoria étnica Han no Tibet e nas regiões vizinhas. Os Han são vinculados à ocupação chinesa, dispõem de privilégios e são mais ricos. Ainda que as afirmações do governo chinês não sejam confiáveis e manipulem a realidade, Pequim afirma ter encontrado armas escondidas em um monastério tibetano. Estariam os próprios monges desafiando o pacifismo e a moderação do Dalai Lama?
Uma coisa é certa: a oposição entre Saturno e Urano [regentes do mapa da China] no segundo semestre recai sobre o Sol de 10 de março, seja o de 1959 ou 2008. A crise pode tornar-se ainda mais aguda.
(CONTINUA)
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