Muhammad Ali-Haj (1ª Parte)
De Dimitri em Jan 17, 2008 | EmRelações Internacionais | 4 feedbacks »

1. Introdução
2. Ali, Plutão e os EUA
3. Origens
4. O Islã e a Glória Olímpica
5. Clay Campeão do Mundo... Clay?
6. O Primeiro Casamento
Muhammad Ali é o perfil analisado por Política & Sociedade este mês. O motivo é simples: o ex-pugilista possui uma personalidade extremamente complexa e teve envolvimento direto com as mudanças que sacudiam o mundo nos anos sessenta. Esporte, orgulho racial, religião, política, mulheres, fama e dinheiro: desvele o homem por trás do mito.
[Texto completo:]
Basicamente, o que torna a trajetória de Muhammad Ali tão importante num período específico do século XX é o fato de se tratar de um atleta de ponta com um peso político e cultural de grande ineditismo. Numa época conflituosa em que a televisão e o showbizz esportivo se desenvolviam, Ali emergiu como um vulcão, escancarando a divisão racial dos Estados Unidos. Veja como isto se deu.

1. Introdução
Cassius Marcellus Clay, Jr. nasceu em Louisville, no Kentucky, em 17.01.1942, 18:35 [+6:00; Astrodatabank/AA]. O boxeador destacou-se em sua profissão chegando ao auge [Sol em Capricórnio e Ascendente Leão] de forma original e engajada [Lua em Aquário]. Dotado de incrível autoconfiança, seu brado "I am the Greatest" tornou-se sua marca registrada [Capricórnio e Leão]. Tinha um comportamento excêntrico e provocador, além de possuir uma forte consciência coletiva [Mercúrio e Vênus em Aquário]. Um verdadeiro ídolo político do esporte.

Começando pelo Sol em Capricórnio, que é o regente do mapa, temos duas configurações de aspectos cruciais. Em primeiro lugar, já que se trata de um boxeador, vejamos a Quadratura T com Marte em Touro e Plutão em Leão, um aspecto naturalmente violento e relacionado ao extravaso de energia e índole rebelde.

Temos um atleta [Sol na casa VI, Marte na IX] com uma “agressividade inconsciente” [Plutão na XII]. Se esta agressividade gera violência interior e exterior [Quadratura T nas casas VI, IX e XII], ela também e capaz de lhe dar prazer [Parte da Fortuna em conjunção com Plutão]. Ali casou-se muitas vezes, teve outras tantas mulheres, e pode ser considerado o machista clássico. Os signos envolvidos [Capricórnio, Touro e Leão pela ordem] conferem grande obstinação e autoconfiança, decisiva para entender sua personalidade e habilidade como boxeador. Repare que mesmo Marte estando exilado [Touro] e mal aspectado, a Quadratura T produziu um grande lutador. A quadratura entre Marte e Plutão, especificamente, possui um orbe bastante estreito.

A outra configuração, não menos importante, é o Grande Trígono entre o Sol, Urano em Touro e Netuno em Virgem, sendo que há ainda um trígono do Sol para Saturno em Touro [Saturno e Urano numa conjunção na casa X]. O elemento Terra dá as cartas e o GT encontra-se nas casas II, VI e X. A categoria de Clay/Ali foi a dos pesos-pesados.
Sendo a casa VI um setor de desenvolvimento físico e profissional dos indivíduos [ainda mais tendo o Sol como regente do mapa, ocupando-a], vê-se o GT Sol-Urano-Netuno favorecendo o sucesso na carreira e, sobretudo, a projeção histórica. Resumidamente, poderíamos apontar Urano na casa X como símbolo de seu interesse político e originalidade social, assim como Netuno na casa II reflete seus valores espirituais, decisivos em sua trajetória.

Contudo, voltemos à configuração anterior, a Quadratura T entre Sol, Marte e Plutão. Se o Sol é o regente do mapa, contribuindo para que Cassius Clay tivesse uma personalidade forte e muito orgulho pessoal, Marte e Plutão são os dispositores da casa IV, ligada às origens e à tradição. Tem-se, pois, uma pista para uma das possíveis causas da agressividade natural do pugilista: o sentimento de opressão na sociedade racista dos Estados Unidos. Este foi, aliás, o motivo de sua “revolução particular”, levando-o a trocar de nome e religião. Ali é, portanto, produto direto da histórica segregação no país.

Quanto ao Grande Trígono, naturalmente especial por envolver o Sol natal com a configuração Saturno-Urano e Netuno, tem Saturno [dispositor do Sol, da Lua, Mercúrio e Vênus e das casas VI e VII], Urano [dispositor da Lua, Mercúrio e Vênus, além da casa VII] e Netuno [dispositor da casa VIII].

Saturno-Urano em Touro e na casa X indica o potencial para que viesse a se tornar popular em sua geração [trígono com o Sol em Capricórnio]. Contudo, percebe-se que Saturno-Urano estão em tensão direta com o stellium entre Lua, Mercúrio e Vênus em Aquário, sendo dispositores dos mesmos. Vênus está na cúspide da casa VII, angular como Saturno e Urano. Esta configuração diz respeito a fatores como a própria natureza conflituosa do boxe, a combatividade política, o abraçar polêmico de hábitos e crenças estrangeiras e uma série de outros fenômenos “sociológicos” de sua vida pessoal [casas VII e X, principalmente].

Clay sempre disse o que pensava, de forma provocativa [Lua-Mercúrio-Vênus em Aquário]. Sabia se promover como ninguém [Capricórnio-Leão-Aquário] e desafiava arrogantemente seus adversários desclassificando-os e acusando-os de medrosos e feios. Achava-se lindo e o melhor do mundo. Era extremamente arrogante e às vezes histérico. Teve muitos casamentos [Quadratura T entre Vênus, Saturno, Urano e o Ascendente] e, como não podia deixar de ser, grandes oponentes no ringue. Lua e Mercúrio na casa VI [próximos a VII] estão em trígono com Júpiter na casa X [performance atlética, engajamento social, desenvolvimento de ideais]. A Lua está em oposição a Plutão, conferindo um caráter ainda mais dramático a sua revolta interior.
2. Ali, Plutão e os EUA

Diante de uma trajetória tão vinculada aos acontecimentos políticos de seu país e de seu destaque como ídolo nacional, nada mais apropriado do que uma comparação entre os mapas de Muhammad Ali e dos Estados Unidos.
Ali tem o Sol em conjunção exata com Plutão dos EUA, símbolo de seu impacto social através da postura agressiva em relação à discriminação racial. Por sua vez, ele foi provavelmente o maior peso-pesado da história -em tese, o homem mais “forte” dos Estados Unidos. Somem-se essas duas características de sua trajetória e temos um indivíduo cuja influência cultural em vida, sobre o país em que nasceu, é essencialmente “plutoniana”. O próprio Plutão natal de Clay/Ali é “indigesto”, pois se encontra numa Quadratura com o Sol e Marte natais [e em conjunção ao Nodo Norte dos EUA].

Posto que o Plutão norte-americano está na casa II, o pugilista possui sintonia direta com a poderosa economia local, o que se amplifica com o Grande Trígono natal e com o fato de Lua e Mercúrio formarem trígonos com Saturno dos EUA, na casa X. Por outro lado, sua Quadratura T também envolve Plutão dos EUA, refletindo um potencial inato para “desestabilizar” o país e propor mudanças radicais, como o próprio separatismo entre brancos e negros. Plutão de Ali está em conjunção com o Nodo Norte de seu país, reforçando a natureza da interação plutoniana de ambos. Júpiter, em conjunção com Urano, extrapola o potencial “revolucionário” do boxeador, e por estar junto à cúspide da casa VII, o deu cacife para ser um dos “inimigos” declarados do Estado.

Outro ponto decisivamente importante é que, paralelamente ao combate político pelejado por Muhammad Ali nos anos 60 a conjunção entre Sol do pugilista e Plutão dos EUA revela ainda a profundidade com que ele foi capaz de compreender a natureza do showbizz esportivo e seu acelerado processo de transformação que ocorria justamente naquela época. Tendo Plutão em Leão, Ali foi capaz de cultivar exaustivamente a identidade e o ego e atingir suas ambições [Capricórnio/Leão]. Sentindo-se à vontade para lidar e beneficiar-se dos louros do esporte e dos recursos da mídia ele naturalmente enriqueceu [Sol de Ali cai na casa II dos EUA, em conjunção com Plutão].

Netuno de Ali está em Virgem [assim como Netuno dos EUA] e em conjunção com o MC do país. Ali foi fonte de inspiração religiosa e igualitária dentro e fora dos Estados Unidos e transformou-se num verdadeiro mito. Netuno em Virgem pode gerar uma concepção da religião e da espiritualidade excessivamente crítica e nada ecumênica. Um tipo de competitividade religiosa que caracteriza muito bem os Estados Unidos da América.

Naturalmente que esta “inspiração” projetada por Ali sobre o país é transmitida pelo modo como o Sol natal dele é “turbinado” pelo Plutão da comunidade social da qual faz parte. O Sol do pugilista está em trígono com Netuno dos EUA. Saturno e Urano de Ali fazem o mesmo aspecto, sendo que o trígono de Saturno para Netuno é exato.

Voltando à conjunção entre o Sol de Ali e Plutão dos EUA, podemos fazer ainda uma correlação sobre o vínculo do pugilista com a organização Nação do Islã, uma entidade com fins político-raciais. Do ponto de vista do establishment político norte-americano, o Nação do Islã era um grupo marginal e tinha por objetivo lutar pela conversão religiosa e pela consciência política dos negros [Plutão natal de Ali está na casa XII e é co-dispositor da IV].

Mas, se a conjunção entre Plutão dos EUA e o Sol natal de Muhammad Ali revela uma “fonte de poder social”, ela também indica indícios da manipulação do pugilista pelo “sistema e suas forças coletivas”. Enquanto ator da cena política local, o Nação do Islã influenciou decisivamente a trajetória da juventude de Ali, logicamente aproveitando-se de sua projeção no mundo esportivo norte-americano. Herbert Muhammad, filho de Elijah Muhammad, o mentor do grupo islâmico, foi seu empresário por vários anos a partir de sua conversão e dirigia a carreira da Ali de acordo com os interesses da organização. Durante a cassação de sua licença para lutar, quando esteve por baixo, o Nação do Islã nem de longe conferiu ao pugilista a atenção que lhe dava antes, o que magoou profundamente a sua família.
A biografia de Muhammad Ali e o peso que exerceu sobre sua geração têm envolvimento direto com a conjunção Urano-Plutão em Virgem, que entre os anos mais intensos de sua vida aplicou conjunção ao seu Nodo Norte. A "transformação" pessoal de Ali influenciou a política norte-americana através do desejo de afirmar-se diferente e em oposição ao sistema. Ali incorporou as contradições e as mudanças de sua época, tida como "revolucionária" [Urano-Plutão conjunção Nodo Norte].

Entre os anos de 1964-67, quando o trânsito da conjunção Urano-Plutão pairava sobre o Nodo Norte, Netuno em Escorpião [metamorfoses espirituais e políticas envolvendo a idéia de religiosidade] cruzava o FC, aplicando sextilha à conjunção e inspirando o sentimento de tomar parte cada vez mais intensamente de sua comunidade étnica [casa IV], buscando sobretudo o confronto com os "brancos opressores".
3. Origens

Cassius Clay ganhou o mesmo nome de seu pai, que é na verdade o nome de um pilítico abolicionista do sécilo XIX. Filho de um pintor de cartazes e letreiros religiosos que tinha confissão metodista e de uma dona-de-casa batista, Cassius Clay e o irmão foram levados a seguir a vertente protestante da mãe, com a anuência do pai. É interessante observar esta ditocomia religiosa envolvendo a tolerância entre duas correntes nitidamente distintas do protestantismo tendo em vista a posterior conversão de Ali ao Islã. (batistas X metodistas). Vivendo em meio aos desenhos com motivos religiosos do pai, cresceu desconfiando do cristianismo por assistir seu pai pintar Cristo sempre branco e de olhos azuis.

O trígono entre Sol e Netuno e Júpiter angular na casa X dão a dimensão da importância do “espírito religioso” [Sol-Netuno] e da “fé enquanto instituição política e cultural” [Júpiter na casa X, exilado]. Saturno, dispositor do Sol, também está na casa X, junto a Urano. O pugilista capricorniano era de fato um indivíduo profundamente cônscio da importância de seu papel como membro da sociedade e desta última como o espaço inalienável de atuação “política” e “profissional” [Sol na casa VI trígono Saturno-Urano na X]. Com Netuno fechando o Grande Trígono na casa II, temos enfim a magnitude do processo de engajamento étnico e cultural operado na conversão ao Islã, que envolveu a produção de filmes, gravação de discos e a edição de biografias por Clay/Ali, sempre de olho na autopromoção e nas vendas [Capricórnio e Leão].

Numa era de solidificação do papel da televisão e do esporte como negócio, o pugilista sentia-se bem junto aos meios de comunicação [Lua, Mercúrio, Vênus em Aquário, Saturno-Urano na casa X]. Na TV, nas concorridas pesagens com os adversários e em flagrantes forjados, ele caçoava dos outros pugilistas, enaltecendo a si próprio com rimas e repentes que são esboços do que viria a ser o rap.

Clay concluiu o ensino médio em 369º lugar dentre os 391 formandos de sua escola, em 1960. Nos tempos de aluno sempre viajava nos finais de semana para lutar. Na cerimônia de sua formatura, um colega orador lembrou-se de que Cassius também merecia uma menção honrosa posto que “um dia ele fará mais dinheiro do que qualquer um neste lugar”. A forte ênfase de Ali no elemento Terra, sua intimidade natural [Sol] com a configuração central de sua geração [Saturno-Urano trígono Netuno] e o destaque que assumem nas casas II, VI e X mostram que o colega de escola estava absolutamente certo. Não apenas um grande campeão (a medalha de ouro olímpica viria ainda naquele ano), mas alguém que desempenharia um papel de enorme relevância no movimento pelos direitos civis, no pesado jogo do showbizz e na própria consciência norte-americana.

Cassius Clay foi levado ao boxe com 12 anos de idade, por um policial que o encontrou na rua espumando de raiva por terem roubado a sua bicicleta. Paralelamente, sem seu “olheiro” saber, começou a treinar também em outra academia de pugilismo, onde o treinador era melhor. Assim, podia ganhar 4 dólares por semana apresentando-se no programa de TV que o policial apresentava e melhorava os fundamentos em sigilo com o outro técnico, que terminou acompanhando a trajetória de Clay no esporte amador.

Portanto, devemos analisar com atenção o momento em que Cassius Clay começa a praticar o esporte que lhe traria a glória e o alçaria à condição de ator político. Para tal, utilizaremos o retorno solar de seu décimo-segundo aniversário, na cidade de Louisville.

Primeiramente, é importante ressaltar que por volta dos cinco anos de idade Plutão em Leão começou a fazer oposição a Lua-Mercúrio-Vênus em Aquário de Cassius, certamente apontando para uma fase problemática de convívio familiar e social. Traumas de infância, incompreensão/intolerância dos pais e conflitos com os garotos de sua idade devem ter pontuado a segunda fase da infância e a pré-adolescência. O menino é levado ao boxe por surpreender seu “descobridor” através da sua raiva [Quadratura T Sol-Marte-Plutão].

No retorno solar de 1954, Vênus [regente do MC] estava em conjunção exata ao Nodo Norte, indicando que precocemente Clay descobriria seu ofício. Ambos, junto com Mercúrio, acompanhavam o Sol do pugilista novato e este stellium em Capricórnio encontrava-se em oposição a Urano em Câncer. Sua vida entrava numa rota de franca mudança e os confrontos no ringue passariam a ser a sua forma de viver. Urano, então na casa XII, marcaria a “gestação do futuro campeão”, que ganharia a medalha de ouro e se tornaria mundialmente conhecido quando o mesmo Urano [radical na casa X] chegasse ao Ascendente.

A oposição entre o stellium em Capricórnio e Urano formava aspectos favoráveis com a conjunção Saturno-Urano natal na casa X, simbolizando o germe de sua carreira, que por fim o levaria ao estrelato e à luta pelos direitos civis nos EUA. Vivendo seu primeiro retorno de Júpiter refaziam-se os trígonos natais para a Lua, Mercúrio e Vênus nas casas VI e VII, indicando o ingresso no meio do boxe [Júpiter na casa XI] e os seus “parceiros” nesta primeira jornada [o policial-apresentador que lhe pagava e o treinador secreto].

A Lua, regente daquele retorno solar, aplicava trígonos para Marte e Saturno em Câncer, favorecendo vínculos e uma atitude emocional positiva frente ao seu desafio. Marte, em quadratura com Lua-Mercúrio-Vênus em Aquário, revelava o prenúncio de muitos confrontos. Finalmente, Netuno na casa III e envolvido numa Quadratura T com o stellium em Capricórnio e Urano em Câncer, o subterfúgio de treinar em dois lugares diferentes.

Outro aspecto importante é a quadratura entre Plutão [co-dispositor da casa IV, origens] e a conjunção Saturno-Urano. De certo modo ela indica a passagem de experiências inter-raciais de caráter familiar e vicinal [Plutão-Ascendente em oposição a Lua, Mercúrio e Vênus na casa VII, infância] para uma percepção mais ampla e sociológica da condição do negro norte-americano [Plutão quadratura Saturno-Urano na X, início da adolescência]. Este aspecto é muito importante, porque atinge especificamente os mesmos meninos de sua geração e, no caso de Clay, uma bandeira específica a ser empunhada na década seguinte.
4. O Islã e a Glória Olímpica

Em 1959, com 17 anos, Cassius Clay conheceu a organização “Nação do Islã” durante o campeonato nacional de boxe amador, em Chicago. Na escola escreveu uma redação sobre o tema, alarmando os professores de que era um jovem com profundo interesse na militância pregada pelo grupo. Num primeiro momento, conseguiram dissuadi-lo de se envolver, mas seu irmão acabou entrando para a organização três anos depois.
No retorno solar de 1959 vemos Urano aproximando-se do Ascendente e numa Quadratura T com o stellium em Aquário nas casas VI e VII. Vênus do retorno está em conjunção exata a Mercúrio e toma parte na Quadratura T, simbolizando a sintonia com pessoas possuidoras de uma visão mais inconformada quanto às relações raciais no país. Não apenas estava evidente para ele a “condição inferior” do negro nos EUA [associada ao trânsito de Plutão pelo Ascendente], como começava a despontar o interesse em participar de um esforço de grupo para tomar parte em um movimento de afirmação social [Urano-Ascendente].

Netuno, co-dispositor da casa VIII encontrava-se em oposição a Marte e em quadratura com Plutão nesta fase de sua vida. Vemos o despertar de uma ideologia doutrinária focada na religião e no sentimento de uma comunidade étnica [casas XII, IX, III; Marte e Plutão dispositores IV] que resultaria em conflitos sociais através de uma investidura de poder [Netuno, co-dispositor da casa VIII].

No retorno solar, Lua e Marte em Touro fechavam uma Quadratura T com Urano em Leão e Vênus em Aquário indicando não apenas as tensões inerentes de sua precoce “politização”, mas também a carreira promissora e a fama incipiente, já que a esta altura começava a despontar como um grande campeão [lembre-se de que o orador na sua formatura previu que ele seria rico e famoso, pois já demonstrava ser um grande boxeador]. A Lua está em conjunção ao MC, em quadratura com Lua e Mercúrio e em oposição com Netuno natais. Marte aplica conjunção a Saturno-Urano [com o primeiro, exata], quadratura com o Ascendente, Mercúrio e Vênus natais e oposição com Júpiter em Escorpião. Aliás, Júpiter em Escorpião na casa IV é um trânsito que também implica em tomada de consciência étnica e religiosa tendo foco nas origens. Netuno, em oposição ao MC natal e à Lua do retorno solar, tem a mesma conotação.

Plutão, em trígono exato com Marte natal, com a Lua na casa IX e com Mercúrio e Saturno na casa V, sugeria formidável vigor físico e canalizava objetiva e intelectualmente a sua “raiva” [Marte quadratura Plutão no mapa natal]. Como Marte natal é o dispositor das casas IX e IV [doutrinas e origens], vê-se que Ali começa a ter um envolvimento religioso “sério” [trígono com Saturno, dispositor do Sol] e “radical” [trígono com Plutão, co-dispositores da IV]. A Lua estava em trígono com Mercúrio e Saturno em Capricórnio [domiciliado]. Mercúrio formava trígono com o MC. Havia, portanto, dois Grandes Trígonos.

Em 1960, ano em que concluiu os estudos secundários, Cassius Clay vai a Roma representar os EUA nas Olimpíadas, ganhando a medalha de ouro no dia 5 de setembro. Antes, porém, em 08.04.1960, ele se apresentou para o serviço militar.

No alistamento, vemos uma oposição exata entre Marte e Plutão no Céu, com o primeiro tendo a companhia da Lua. Não se esqueça que ambos tomam parte na Quadratura T natal com o Sol, o que confere magnitude considerável ao evento. Vemos o prenúncio do que viria a ser um conflito por toda a sua juventude. Clay foi reprovado no exame militar e dispensado por falar e escrever muito mal [lembre-se de que ele teve péssima classificação na escola e possuía Vênus, regente da casa III, afligido]. Tendo recusado posteriormente a convocação para ir ao Vietnã como reservista, o Grande Trígono exato formado por Marte natal, Júpiter em Capricórnio e Plutão em Virgem insinua a vitória final na Suprema Corte, dez anos depois. A Lua, em Virgem, toma parte na configuração.
Vê-se ainda mais aspectos importantes: Netuno, que fazia oposição a Marte natal, está harmonicamente posicionado diante da oposição Marte-Plutão e do Grande Trígono no Elemento Terra. O argumento de Clay/Ali acatado pela Suprema Corte e que viria a absolvê-lo era de que suas convicções religiosas o impediam de ir ao Vietnã [Netuno oposição Marte natal]. Urano, no Ascendente, aplicava oposição ao stellium em Aquário indicando que o exército seria um grande inimigo em sua vida. O Sol em Áries também sugere que ele seria o vencedor.
Vejamos agora a conquista da medalha de ouro:

Plutão em Virgem seguia em trígono com Marte natal, abrindo seus horizontes para viagens mais importantes, freqüentes e longas; lembre-se que Cassius Clay já tinha o costume de viajar pelo país quando adolescente, para lutar [Marte dispositor da IX, viagens]. Plutão aplicava ainda trígono para o MC e Saturno em Capricórnio [dispositor do Sol, dignificado] fechando um Grande Trígono. Analisando os trânsitos de sua medalha olímpica vemos que o início de sua consagração como boxeador está diretamente ligada ao seu primeiro retorno nodal [uma Lua Cheia ressaltava o trânsito] e à passagem de Urano [radical na casa X] pelo Ascendente. Vê-se que a data da final olímpica tinha relação direta com o seu “destino” [Sol e Nodo Norte em conjunção com Nodo Norte Natal e Lua em conjunção com o Nodo Sul]. Além disso, Clay despontava como um boxeador diferenciado [Urano], posto que lutava com a guarda baixa e convidando o oponente para atacá-lo, revidando em seguida avassaladoramente. Ele era um pugilista extremamente inconveniente para os adversários porque os perseguia nas vésperas das lutas para desestabilizá-los com agressões verbais e escândalos. Já em Roma Clay dizia a todo momento que a medalha de ouro seria sua, com incrível autoconfiança.

Naturalmente, a medalha olímpica colaborou decisivamente para esta “diferenciação”, alçando-o à condição de vencedor. O sucesso chegava até o garoto de Louisville.

Mas a “diferença” para Cassius Clay ficava patente por outros motivos. Naquele mesmo ano, depois de ser barrado num restaurante que só servia pessoas brancas, brigou com uma gangue racista e, segundo o próprio, jogou sua medalha no rio Ohio. Clay era um herói olímpico, mas encontrava sérias restrições pela condição de negro [Urano em oposição a Vênus natal e em quadratura com a conjunção Saturno-Urano], o que feria o seu orgulho [Ascendente Leão].
Voltando à conquista da medalha de ouro olímpica, vejamos sua progressão lunar para o dia 05.09.1960.

Vênus progredida, em conjunção com a Lua e em trígono com Júpiter, representa um aspecto muito poderoso que se manifestou pela glória e fama alcançados. Note que Vênus é o regente do MC de Cassius Clay. O Ascendente da progressão está em Virgem, num trígono para Marte natal.

O campeão estava em plena forma. Marte progredido, em conjunção com o MC natal, iniciava trígono para o Nodo Norte natal. Estes aspectos reiteram o vigor e a disposição de Clay, assim como um momento muito especial de sucesso e conquistas. Com a intensificação do trígono entre Marte e o Nodo Norte, Cassius Clay iria ingressar no boxe profissional. O MC progredido estava em trígono com Netuno natal, caracterizando um período de inspiração para metas pessoais e espirituais.

Repare que a Lua havia aplicado conjunção ao mesmo Netuno na virada 1959-60 [e trígono para o MC progredido], um símbolo não apenas de sua ascensão como boxeador nos meses que antecederam a disputa olímpica, mas também de seu contato com a organização Nação do Islã. Nesta mesma época, Mercúrio progredido estava em quadratura com Urano natal, abrindo sua mente para novas e combativas idéias.

Após vencer em Roma, Clay voltou para Louisville e tornou-se boxeador profissional, vencendo sua primeira luta em 29.10.1960, contra um chefe de polícia da Virgínia Ocidental. Seu estilo era “revolucionário” já que preferia manter a guarda abaixada desviando-se dos golpes com movimentos laterais do tronco e movendo-se rapidamente com os pés. Até então (ou mesmo depois de sua aposentadoria) ninguém havia ousado expor-se desta maneira em lutas de pesos-pesados, onde um único golpe encaixado pode ser fatal.

Curiosamente, ao vencer sua primeira luta como profissional a Lua encontrava-se novamente em conjunção ao Nodo Sul, em Peixes. Saturno na casa V, e em trígono com o MC, representa a passagem do amadorismo para a profissionalização, fechando um Grande Trígono com o retorno do Nodo Norte. Note que Sol e Netuno estavam em conjunção e sua carreira seria influenciada por sua inspiração religiosa.

Entre 1960-64, permanceceu invicto no Boxe, tornando-se cada vez mais famoso. Enquanto isso, Netuno cruzanva o FC e seu envolvimento com o Islã, cada vez mais forte, ainda permanecia em sigilo. Às vésperas da ansiada disputa pelo título mundial, Saturno chegava à cúspide da casa VII reforçando a visão do homem branco como um “inimigo em potencial”.
5. Clay Campeão do Mundo... Clay?

Finalmente chegara o dia em que Cassius Clay sempre se disse preparado: a luta pelo título mundial dos pesos-pesados. Clay infernizou a vida do adversário, Sonny Liston, nas semanas que antecederam a luta. Chegou até mesmo a levar um ônibus com auto-falantes até a sua casa, durante a madrugada, para perturbar o sono de Liston gritando escandalosamente que seu rival era feio e medroso, e que o título seria uma barbada. Obviamente que todos os jornais e redes de TV foram previamente avisados da invasão de privacidade. A conjunção natal entre a Lua, Mercúrio e Vênus em Aquário entre as casas VI e VII, que por sua vez estabelece uma quadratura para Saturno-Urano na X traduz a forma como Clay encarava seus rivais: provocações, barracos, desacatos, humilhações. Clay parecia não possuir controle. Mas tinha muito faro para se auto-promover. Em certos momentos, é difícil saber onde termina a pessoa e começa o personagem [Capricórnio, Leão, stellium em Aquário e Saturno-Urano na X]. De qualquer maneira, o stellium em Aquário diz muito da tática de intimidação como recurso para começar a vencer as lutas antes mesmo delas começarem, Já que Clay os preferia possessos.

Entre a primeira luta como profissional, em 1960, e a luta com Sonny Liston, em 25.02.1964, o boxeador de 22 anos estabeleceu o recorde de 19 vitórias e nenhuma derrota, sendo 15 delas por nocaute. Nesta época, Cassius Clay tornou-se famoso ainda por prever corretamente em qual round ele venceria seus oponentes. Posteriormente, confessou que copiou a “prática” de um lutador de wrestling (Vale Tudo) que tinha milhares de fãs.

Mas o combate de sua vida ainda teria outros ingredientes. Na semana que antecedeu a luta em Miami Beach, o líder Malcolm X foi visto na cidade criando enorme rebuliço no país sobre um possível vínculo entre Clay, X e o grupo Nação do Islã. Na antevéspera Malcolm X sumiu da cidade, dando a entender que não assistiria a luta, mas apareceu subitamente no ginásio minutos antes de Clay entrar no ringue para desafiar Liston.

Cassius Clay nocauteou Sonny Liston no sétimo assalto, tornando-se enfim campeão mundial de pesos pesados. Ao vencer, eufórico, gritou a frase que se tornaria sua alcunha: "Sou o maior de todos". No dia seguinte após a luta, revelou à nação que era membro do Nação do Islã, também chamada de “Negros Muçulmanos”.

Além de assumir que era membro da organização, Clay declararia ainda que o grupo havia dado a ele o nome de “Cassius X”, posto que o sobrenome “Clay” era um símbolo da escravidão de seus ancestrais. Dias depois, em 06.03.1964, Malcolm X, ministro e porta-voz do Nação do Islã, levou-o para uma visita ao prédio das Nações Unidas e reiterou que o pugilista receberia o “X” de seu nome. Na mesma noite porém, Elijah Muhammad, líder espiritual do grupo ("o mensageiro"), gravou uma entrevista para uma rádio dizendo que o nome que Cassius Clay passaria a usar seria Muhammad (“glorioso”) Ali (“o quarto califa”).

No início poucos jornalistas levaram o novo nome a sério, mas os repórteres britânicos e o veterano boxeador Don Dunphy passaram a chamá-lo assim. A adoção do novo nome representou uma nova identidade, forjada no fato de ser um membro da “Nação do Islã” e comprometida com a emancipação da comunidade negra norte-americana.

A relação entre Muhammad Ali e Malcolm X é importante porque toca no cerne da questão envolvendo a militância do pugilista. Netuno de Malcolm está em conjunção exata com o Ascendente de Ali, demonstrando não apenas a influência religiosa sobre o boxeador [Malcolm era ministro do “Nação”], mas a presença sua presença na conquista do título e ao seu lado no anúncio da conversão e da primeira mudança de nome. Como está junto ao Ascendente, Netuno de Malcolm está em oposição ao stellium em Aquário, e o líder representava um de seus mentores espirituais na busca da emancipação frente aos conflitos com a "sociedade branca".
O Sol de Malcolm, em Touro, fazia conjunção estreita com Urano de Ali, estimulando a conversão e a militância. Um trígono estreito entre o Sol de Malcolm com Sol de Ali gerava sintonia pessoal, havendo inclusive intimidade familiar. Outro trígono muito preciso entre o Sol de Malcolm e Netuno de Ali reforçam a conexão espiritual. Júpiter de Malcolm aplica conjunção ao Sol do boxeador, favorecendo a ascendência religiosa e política sobre ele através do ensinamento de certos dogmas e preceitos. O mesmo Júpiter forma trígonos com Saturno-Urano do pugilista, estimulando sua atuação política. Urano de Malcom X estabelecia uma oposição a Netuno de Muhammad Ali, politizando as inclinações espirituais do novo campeão mundial.
Saturno de Malcom X, em conjunção com o FC de Ali, representa a cobrança sobre o compromisso com sua etnia e o passado [Islã]. Lua e Mercúrio de Malcolm forma conjunção com Marte do nosso biografado [com aquele último, exata], assinalando uma influência intelectual [Mercúrio] carregada de um sentimento étnico [Lua] sobre a canalização de sua indignação e sobre a carreira de boxeador [Marte].

No retorno solar do ainda Cassius Clay, em janeiro de 1964, Marte em Aquário estava em conjunção com o Sol, em oposição exata a Plutão, e também fazia uma quadratura estreita com Marte, ativando sua Quadratura T natal. Assim como no dia de seu alistamente, novamente uma oposição exata entre Marte e Plutão. Este quadro sintetiza o que eram aqueles tempos: o pugilista de Louisville chegava ao topo da carreira ao se tornar campeão profissional de pesos-pesados [Marte] e revelava sua militância política [Aquário]. Plutão, na revolução solar, estava em conjunção ao MC e ambos incidiam sobre o Nodo Norte natal. Naquele ano, ou melhor, poucas semanas depois de seu aniversário, o agora Muhammad Ali era coroado o maior boxeador do mundo e trocava de identidade. O Ascendente do retorno solar daquele ano caía sobre sua casa IV. Clay buscava através da afirmação de sua etnia [casa IV] a emanicipação dos negors na sociedade norte-americana[Sagitário]. A quadratura envolvendo Saturno na casa VII e Netuno e o Ascendente na casa IV revela as tensões inerentes à sua posição em defesa da sua “raça” [casa IV] e o resto da sociedade norte-americana, majoritariamente “branca” [casa VII]. A partir de então, Muhammad Ali influenciaria decisivamente não apenas a sociedade dos EUA na luta pelos direitos civis, mas a própria ascensão dos negros numa década notoriamente conhecida pelo confronto político e comportamental.

Diante da hipocrisia da democracia norte-americana em relação aos negros, Ali rapidamente tornou-se um personagem polêmico e controverso, além de extremamente popular e sem papas na língua. Afinal, ele possui Lua, Mercúrio e Vênus numa conjunção em Aquário.
Oscilando entre a luta pelos direitos civis e o próprio separatismo, Ali, Malcom X, Elijah Muhammad e o Nação do Islã passaram a ser vistos com suspeição cada vez maior pelo status quo e segmentos da sociedade local. Ali provocava deliberadamente situações de conflito, como quando afirmou: “Seguimos os ensinamentos do líder Elijah Muhammad e não queremos ser forçados à integração. A integração é errônea. Não queremos conviver com os brancos, isso é tudo”. Sobre casamentos inter-raciais disse que “nenhum negro ou negra inteligente, de acordo com a sua consciência, gostaria de ver garotas e rapazes brancos indo a seus lares para se casarem com seus filhos e filhas negros”. Ademais, seu grupo via o homem branco como sendo o “diabo” e “desonesto”. Ali acusava os brancos de odiarem os negros. O campeão migrara, em pouquíssimo tempo, para o centro do rodamoinho da questão racial nos EUA.
No mapa natal de Muhammad Ali fica evidente a importância de sua Quadratura T entre o Ascendente Leão, Vênus em Aquário e a conjunção Saturno-Urano em Touro para entender a síntese de sua controvertida e conflituosa trajetória. O Ascendente Leão indica um indivíduo orgulhoso e cônscio de seu valor, mas com um sentimento de “diferença” em relação ao convívio com a hegemonia branca [Vênus em Aquário na cúspide da casa VII] e sabedor do papel especial que ele mesmo e sua geração tinham de exercer para reverter e transformar a condição da população negra [Saturno-Urano na casa X]. Desta forma ele colaborava para, junto aos nascidos em 1942 [Saturno-Urano, uma geração que viraria o mundo de cabeça para baixo], criar um ambiente “revolucionário” segundo a sua perspectiva pessoal.

Pois bem: na noite em que chegou ao posto máximo do boxe, a Lua estava sobre seu Ascendente [e em conjunção a Netuno de Malcolm X], aplicando trígonos para uma conjunção Vênus-Marte em Áries na casa IX. Uma ênfase do Elemento Fogo nas casas I e IX coroa-o o "melhor" do "mundo". A Lua fazia ainda uma oposição a Mercúrio e Saturno na casa VII, insinuando que o "controle do palco" [Lua em Leão] durante a preparação e a desarticulou e gelou seu oponente [Mercúrio-Saturno na VII]. A configuração fechava a Quadratura T com Saturno e Urano natais. Sol e Marte ainda estavam em conjunção [veja retorno em 1964], agora numa oposição com Urano em Virgem. Para que imaginava que Cassius Clay era apenas um grande e abusado boxeador, o circo apenas começava a pegar fogo.
No dia seguinte, quando revelou que passaria a se chamar Cassius X, a Lua em Leão intensificava a quadratura com Saturno-Urano natal. Com a oposição entre a Lua e a conjunção Mercúrio-Saturno na casa VII ocorria o mesmo. Saturno em quadratura exata com Urano natal. Cassius Clay dava outro golpe, tão importante quanto o título.

Na visita com Malcolm X à sede da ONU dias depois do título (06.03.1964), uma oposição exata entre Marte e Plutão estava sobre seu eixo nodal. Vemos que este é um aspecto recorrente em eventos marcantes de sua vida. Ao final, a briga de Ali não era apenas para ser o maior do mundo, mas envolvia a própria sociedade norte-americana.

Para termos a dimensão do que vivia Muhammad Ali naqueles dias e quais seriam as conseqüências de sua atitude, basta checar sua progressão lunar para a noite em que se tornaria campeão mundial dos pesos pesados, revelando no dia seguinte troca de nome: o MC progredido aplicava uma sextilha a Plutão e a Parte da Fortuna natais [grande sucesso e mudança de identidade notoriamente voltada para fins políticos], a Lua progredida estava em oposição a Urano natal, na casa IV [o vínculo étnico e a opção pela militância, numa atitude de rebeldia e inconformismo com a situação dos negros nos EUA] e, o que não é menos importante, o Sol estava sobre a cúspide da casa VII e em conjunção com Vênus natal [Ali conseguia atingir o maior objetivo de sua vida, comprava a briga com os brancos opressores e se sentia em condições de enfrentar qualquer adversário]. Nos meses seguintes, o Sol progredido iniciaria quadratura com Saturno natal [o pugilista afrontava o status quo e passaria a sofrer fortes retaliações dele].
Contudo, o próprio movimento negro nos Estados Unidos dava mostras de divisão: se no início Cassius tornou-se “X” (Malcolm), dias depois virou “Muhammad” (Elijah). Entre novembro de 1963, após declarações de frieza quanto à morte de John Kennedy até março de 1964, quando notificou publicamente seu desligamento da entidade, Malcolm passou por um longo processo de “fritura”. Vê-se, então, que a declaração de Cassius Clay como membro do Nação do Islã e a dupla mudança de nome ocorrem nas duas semanas que antecederam a saída de Malcolm (08.03.1964). Muhammad Ali tomaria então partido da organização, afastando-se de Malcolm, que viria a morrer assassinado menos de um ano depois.
6. O Primeiro Casamento

Meses depois ser alavancado para a fama com o título e a conversão, Muhammad Ali se casou com Sonji Roi em 14.08.1964. Sonji era uma moça que servia drinques num bar, e ambos se casaram apenas um mês depois de se conhecerem.

Uma conjunção entre Vênus, Marte e o Nodo Norte em Câncer aplicava trígonos para Saturno em sua casa VII. Ainda que Saturno talvez indicasse a vontade de se comprometer seriamente numa união marital, a conjunção Vênus-Marte-Nodo Norte insinua a decisão precipitada. Júpiter, dispositor da casa V, estava sobre a conjunção Saturno-Urano [mais próximo a Urano que de Saturno] revelando a “paixão fulminante” que também pode ser corroborada pela conjunção entre Lua e Netuno na casa IV no dia de seu casamento. Trânsitos na casa X costumam indicar assuntos relativos às uniões civis. Finalmente, o Sol encontrava-se sobre o Ascendente, sugerindo uma perspectiva pessoal muito “autocentrada” ao ingressar na união. Pouco tempo depois isto ficaria evidente e veremos o porquê. Em sua progressão lunar, Mercúrio estava retrógrado na casa VII e Vênus também fazia o movimento aparente.
Como podemos observar, o ano de 1964 é um marco na trajetória biográfica de Ali por vários motivos, que busquei correlacionar aos trânsitos e progressões apontados acima. A magnitude desses eventos pessoais pode ser sintetizada pelo impacto da chegada de Plutão ao Nodo Norte natal.
Contudo, no início de 1966, Ali iria se divorciar de Sonji Roi pelas objeções dela aos costumes islâmicos tais como a severa observância aos trajes femininos. Ficção ou realidade, num (bom) filme rodado dez anos depois sobre sua vida, em que o próprio Ali estrelou [Capricórnio, Leão, stellium em Aquário], há uma cena em que ele a agarra numa festa doméstica com muitos convidados e a carrega escadas acima, obrigando-a, no quarto, a abaixar a curta saia que usava até os joelhos, rasgando sua roupa e deixando a esposa seminua, que desceu correndo as escadas, passando por todos os convidados e deixando a casa. Com ou sem moral islâmica, Ali é muito ciumento [Ascendente Leão, Quadratura T Sol-Marte-Plutão]. Definitivamente, uma pessoa muito difícil de se lidar.

Paralelamente ao divórcio, o exército reconsiderou o exame que Ali havia feito seis anos antes, reclassificando-o como apto para lutar no Vietnã, um claro sinal de retaliação política ao pugilista cada vez mais envolvido com o movimento pelos direitos civis e a propagando do Islã.
Ali, em seguida, recusou-se a entrar para o exército, alegando que a guerra era incompatível com o Qur’an Sagrado e suas convicções religiosas. “Não estou fugindo do barco. Não lutaremos em guerra alguma a não ser aquelas declaradas por Alá ou pelo Mensageiro (Elijah Muhammad). Não participamos de guerras cristãs ou guerras de infiéis. Não vou lutar contra o Vietcongue. Eles nunca me chamaram de crioulo. Os brancos, ao contrário, sempre agrediram a mim e a minha gente”.
Voltando ao divórcio: se Muhammad Ali se casou sob uma conjunção entre Vênus e Marte em Câncer, ele se divorciou com outra conjunção entre os dois planetas, então em Aquário e sobre sua conjunção Lua-Mercúrio natal que, como vimos, está associada a conflitos em sua vida pública e pessoal.

O retorno solar de Ali em 1966 é uma importante fonte de análises para seu divórcio e a negativa em lutar no Vietnã, até porque estes foram eventos que ocorreram muito próximos ao seu aniversário daquele ano. O Ascendente estava junto a Júpiter, colocando em primeiro plano o direito à liberdade de escolha na questão da guerra e o divórcio por incompatibilidade religiosa. Ali afirmava sua “independência”. Saturno e o MC pairavam sobre o Nodo Sul, estabelecendo uma oposição com a conjunção entre Urano e Plutão em Virgem, símbolo de uma época de radicalizações políticas e comportamentais. Se por um lado a conjunção Urano-Plutão aplicava trígonos para o MC e Saturno-Urano natais, indicando sua impetuosidade em projetar-se como um líder militante visando ora os direitos civis ora o separatismo, por outro criava uma forte represália do status quo [oposição de Saturno em Peixes]. A Lua em Sagitário fechava a Quadratura T com Saturno, Urano e Plutão e Marte estava exatamente sobre Vênus e a cúspide da casa VII, aumentando a pressão exercida e sofrida pelo homem que se tornava uma das lideranças mais amadas e odiadas dos EUA. Começava o maior de todos os combates.

Já a progressão secundária do início de 1966 mostra o Sol em quadratura com Saturno natal, refletindo um período de dificuldades pessoais, caracterizadas pela problemática da convocação ao Vietnã [Saturno na casa X, “cumprimento do dever”].
Note que as questões civis relativas ao casamento também envolvem a casa X, onde está Saturno. O Sol progredido, por sua vez, estava na casa VII. Na verdade, Ali sempre teve envolvimentos extra-conjugais, chegando a ter dois filhos fora de seus casamentos. Mercúrio retrógrado estava sobre a cúspide da casa VII.
(continua no post 20/01)
4 comentários
Pesquisando na internet, achei uma coincidencia incrivel. Três dos maiores lutadores de boxe norte-americanos são capricornianos, com datas entre 10 e 17/01. Ali, Foreman e Fazier. Os três foram medalhistas de ouro em olimpíadas e se enfrentaram.
Achei ótimo sobre Ali. Muito bom!
Sou um grande fã de boxe e esse artigo foi de suma importancia.
Obrigado!
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