A China Moderna (editado)
De Dimitri em Ago 14, 2007 | EmRelações Internacionais | 3 feedbacks »
1. A CHINA MODERNA
2. OS PRIMEIROS ANOS DA NAÇÃO LIBRIANA
3. O MAIOR PIRATA DO MUNDO!
4. SATURNO FERAL
5. ÉRIS CHINESA

A República Popular da China foi fundada em Pequim às 15:15hs de 1º de Outubro de 1949, segundo André Barbault. Possui Sol em Libra e Lua conjunta ao Ascendente Aquário, uma combinação notoriamente coletivista que caracteriza uma nação “comunista” em pleno século XXI; um país cheio de complexidades e contradições que vem sendo capaz de crescer e se tornar uma potência desde que Deng Xiaoping introduziu reformas econômicas e sociais em 1978.
[Texto completo:]

Um stellium envolvendo o Sol na casa VIII permite a associação direta com o movimento revolucionário e a expansão econômica que transformou a civilização milenar. Levando-se em consideração a estagnação e a impotência nos séculos imediatamente anteriores à revolução e o pesadelo dos primeiros anos “modernos”, o país encontrou o caminho de um desenvolvimento voraz que a elevou ao restrito clube dos principais atores do pesado jogo da política, da economia e do meio-ambiente globais. É inegável a mudança radical, poderosa e turbulenta da China nos últimos 60 anos.

Este importante ponto focal na casa VIII, principalmente no que tange a conjunção entre Mercúrio, Netuno e Nodo Sul próxima ao Sol sugerem um inspirado caráter revolucionário que, entretanto, perdeu-se em devaneios e loucuras ao longo de sua trajetória. A Revolução Cultural, entre 1966-76, foi a maior e a mais dramática delas. Netuno é, classicamente, referência em temas ligados ao comunismo. A imagem mítica de Mao Zedong, que ajudou a consolidar a revolução chinesa, é a mesma que trouxe inúmeros sofrimentos, caos e fanatismo ao país. Mesmo nos dias de hoje, Mao ainda é o mito maior da China moderna.

Uma destacada conjunção entre o Ascendente e Lua chineses, em Aquário, expressa seu assombroso tamanho populacional. A ideologia da Revolução Chinesa pontuou-se pelo lema do governo “do povo”, concentrando seus esforços na eliminação da propriedade privada, dos privilégios e das classes sociais. O individualismo e os valores burgueses vêm sendo desde então combatidos (agora de modo paradoxal, no hibridismo do comunismo chinês contemporâneo: Libra, e também Aquário), em prol da “nação” e do “povo” chineses. Por outro lado, um regime comunista desde sempre excêntrico que criou uma poderosa via de transformação e de desenvolvimento envolvendo a maior população do mundo criando uma enorme projeção -em diversos níveis- pelos quatro cantos da Terra. Forjou-se um ator muito destacado (o papel que inevitavelmente lhe cabe) no cenário internacional.
A Revolução e Mao Zedong se confundem: Excentricidade e Carisma

Apesar das mudanças estruturais de 1978, apenas agora os caminhos da China começam a lentamente deixar para trás a onipresença simbólica e doutrinária de Mao. A sintonia, o carisma e o apoio que ele e sua revolução permanente receberam devem-se aos trígonos que Sol e Mercúrio recebem da Lua e do Ascendente, ao passo que os descaminhos e a lobotomia social que ele mesmo engendrou estão ligados à oposição de Mercúrio e Netuno ao Nodo Norte. A quadratura entre Sol e Urano aponta para as decisões radicais e irresponsáveis que durante muito tempo criaram convulsões sociais no páis. A China foi capaz de muitos planejamentos impulsivos e equivocados que conferiram em certo tipo de errância à vida social chinesa, ainda que a liderança do Partido Comunista Chinês sequer chegasse a ser ameaçada, já que os aspectos favoráveis envolvendo a conjunção em Libra, Lua e Ascendente, simbolizam um forte apoio do povo.

Uma conjunção entre Marte e Plutão possui íntima analogia com o Exército de Libertação Popular (Vermelho), que desde a década de 20 é o principal braço do PCC. No período pré-revolucionário as duas instituições possuíam um forte caráter simbiótico encontrado ainda hoje. O sextil entre Mercúrio-Netuno-Nodo Norte e Marte-Plutão retrataa esta interdependência entre o governo e as forças armadas. Marte e Plutão também podem ser associados à União Soviética, que num primeiro momento foi fundamental para a vitória de Mao e os primeiros anos que se seguiram à revolução (a conjunção está na casa VII – “parcerias” - sendo que Marte está em conjunção exata a Saturno da antiga URSS). A quadratura que Vênus em Escorpião (casa IX) aplica a ambos pode ajudar a entender o rompimento posterior com os russos, e explicar ainda os problemas com o crescimento populacional (e neste caso, a Lua angular indica um foco importante).

Saturno, em Virgem, sem fazer aspectos principais com os outros planetas ou os ângulos, está na casa VIII. Mais adiante refletiremos sobre sua condição “feral”. Por enquanto, é importante saber que somente ao fim do primeiro ciclo de Saturno a Revolução Chinesa tomou o prumo atual, introduzindo reformas econômicas e controle populacional.

Continuaremos a seguir com as análises sobre a China moderna, tendo em vista a sua relevância cada vez maior no cenário mundial e a proximidade de seu segundo retorno de Saturno. Certamente os graves problemas ambientais (alguns analistas afirmam que os chineses já ultrapassaram os norte-americanos com os maiores poluidores do mundo), a super-população, as olimpíadas de Pequim e mais ajustes econômicos serão temas que nortearão o caminho da China durante a passagem de Saturno em Virgem.
2. OS PRIMEIROS ANOS DA NAÇÃO LIBRIANA: CHINA

Quando pensamos na China, a imagem óbvia é a de um país continental com a maior população do planeta e uma etnia diferente da nossa. Isso passa a idéia de uma unidade fechada, mas a realidade é diferente.

Toda bandeira nacional é carregada de forte simbolismo. O pavilhão chinês, criado dez dias antes da proclamação do novo Estado, contém cinco estrelas sobre um fundo vermelho. A estrela maior representa o Partido Comunista, assim como as demais, menores, indicam as diferentes classes sociais como o campesinato, o operariado, a burguesia e os capitalistas. No início da revolução, a idéia era fazer o Partido integrar estes quatro segmentos da sociedade chinesa tendo em vista alcançar as diretrizes do socialismo. Uma visão da importância do entendimento e da interdependência entre os estamentos que então compunham a sociedade chinesa para que, liderados pelo PCC, atingissem o sucesso da Revolução. Um simbolismo, portanto, em sintonia com a ênfase Libra-Aquário.

Não devemos nos esquecer que o Kuomitang, derrotado pelo Exército Vermelho, fugiu para a ilha de Formosa (Taiwan) onde ficou protegido por um bloqueio naval norte-americano e criou a República da China sob a liderança de Chiang Kai-Shek. As relações entre os dois países sempre foram muito tensas, como ainda hoje continuam a ser. Tendo o Sol em Libra (ver post editado de 14/08), é natural que a República Popular da China possua também espectros definidos de alteridade e rivalidade. A pressão de Pequim ante sua “província rebelde” é bastante intensa e, tecnicamente, as duas nações continuam em guerra.

Todavia, não se trata apenas de Taiwan. A China moderna teve de conviver durante décadas com Hong-Kong e Macau, duas possessões européias no próprio continente que no final dos anos 90 passaram para o controle chinês. Consideradas “regiões administrativas especiais” (principalmente no caso de Hong Kong, um dos centros financeiros mais dinâmicos do mundo) e dotadas de uma identidade e uma história muito particulares, gozam de um atributo que condiz com a natureza libriana através do lema: “um só país, dois sistemas”. De modo que a unidade chinesa é um caso muito mais complexo do que parece.

A história da República Popular da China é marcada por milhões de mortes, bem ao estilo de sua destacada casa VIII. Os dois anos após a tomada de Pequim viram 5 milhões de mortes devido à repressão aos contra-revolucionários liderados por Taiwan. Nesse meio tempo, o país é reorganizado em moldes comunistas, com a coletivização das terras e o controle estatal da economia. A busca da igualdade completa entre os cidadãos também pode ser entendida como um tema libriano, sendo a China moderna portadora de Netuno (um planeta classicamente associado ao Socialismo) em Libra.
Em 1950, Mao Zedong assinou um tratado de amizade com a antiga URSS, tratado esse fundamental nos primeiros anos da nova China. Aliás, os soviéticos reconheceram o novo governo chinês no dia seguinte à sua proclamação e uma semana depois já tinham um embaixador em Pequim. Já vimos que Marte chinês está na casa VII em conjunção exata a Saturno da URSS. Se a União Soviética teve de criar o comunismo real como experiência inédita e a partir dali assumir a liderança do modelo proletário para o mundo (Netuno em Leão), à China coube o papel de implementar o comunismo diante do exemplo e da sombra do país pioneiro (Netuno em Libra).
O nascimento da nova China permitiu que seu enorme país colaborasse decisivamente para aumentar o poderio do bloco socialista e transformasse o equilíbrio geopolítico no mundo. Portanto, para a URSS era de vital importância investir nas relações com a China e estabelecer uma sólida aliança. Tendo Marte e Plutão em conjunção com Saturno soviético, esta intenção fica clara; o “peso” da China (Marte-Plutão) atendia aos interesses pragmáticos dos russos (Saturno).
Em 14.02.1949 ambos os países assinam o tratado no qual uma estrada de ferro e um porto chineses passavam a ser utilizados em parceria. Curiosamente, isto significava um retorno aos privilégios que a Rússia czarista tivera antes da invasão japonesa ao nordeste da China. Em troca, obteve apoio da força aérea de Moscou contra os bombardeiros de Taiwan e incentivo a 141 empresas industriais de grandes dimensões, abrindo caminho para a criação de bases sólidas para o desenvolvimento da China.

Durante a assinatura do tratado, a Lua progredida aplicava trígono ao Sol natal chinês, dando ênfase à possibilidade de alianças importantes. Pelos trânsitos, Vênus em Aquário estava em conjunção exata a Lua chinesa, estando Vênus em movimento retrógrado aparente, indicando que a sintonia de interesses poderia não durar muito, o que realmente aconteceu. Júpiter, também em Aquário e na casa I, formava trígonos com os planetas em Libra da China. Finalmente, Lua e Mercúrio estavam em conjunção com Júpiter natal. O acordo com a URSS era realmente uma mão-na-roda.

Com a ênfase em Libra, o caso chinês é um ótimo laboratório para observações acerca de Éris. Nos próximos posts sobre o país abordaremos este importante detalhe.
3. O MAIOR PIRATA DO MUNDO!

O mapa da China moderna possui uma característica interessante: Júpiter e Saturno estão em signos de Terra (Capricórnio e Virgem, respectivamente). Júpiter, na casa XII -onde está à vontade-, é dispositor da II e da XI, favorecendo uma série de atividades realizadas nos bastidores, entre elas a pirataria.

Nota-se uma sextilha "exilada", formada com Vênus em Escorpião, indicando o “potencial” para lucros através de ilícitos. Gilberto Scofield (“Um Brasileiro na China”) afirma que em Pequim é fácil comprar bolsas Prada ou casacos de couro Armani em lojas que mudam de endereço de três em três meses. É possível encontrar de artigos absolutamente idênticos aos originais a imitações grosseiras. Os fornecedores, muitas das vezes, são funcionários das fábricas terceirizadas das grandes grifes, que se estabeleceram no país atrás da mão-de-obra barata.

A capital chinesa possui pelo menos três grandes mercados piratas que, depois da Cidade Proibida e da Grande Muralha, são os maiores pontos turísticos da cidade, recebendo cem mil pessoas por dia. Num deles, uma bolsa Louis Vuitton idêntica à original pode ser comprada por 150 yuans (US$ 19).
Após três décadas de abertura econômica, a China se vê pressionada a combater o mercado negro interno e as falsificações, já que é a maior nação pirata do mundo. Para se ter uma idéia, as cópias de produtos brasileiros (de café e guaraná em lata até orelhões) e o contrabando via Paraguai fazem o Brasil perder US$ 4 bilhões por ano. Já o Japão, tem prejuízos de US$ 34 bilhões anuais com cópias de suas multinacionais.

Este é um aspecto importante e levando-se em conta que Vênus é o dispositor do Sol, adquire magnitude considerável. O país tem um parque industrial capaz de produzir virtualmente tudo, além de mão-de-obra barata, necessidade de gerar empregos e alto nível de empreendedorismo. Até 1986, não havia lei que protegesse marcas e patentes na China. E, até 2002, a lei só protegia as marcas e patentes estrangeiras. Chineses podiam copiar chineses à vontade. Ao entrar para a Organização Mundial do Comércio, cinco anos atrás, as coisas começaram a mudar. Lentamente.
Júpiter, regente das casas II e XI, sugere o peso que a pirataria tem no PIB do país e o seu alcance internacional. De Viagra a carros importados, passando por livros e artigos esportivos, a China é capaz de copiar – com talento ou não – quase tudo. Afinal, o país tem uma conjunção entre Sol, Mercúrio e Netuno em Libra e na casa VIII!
No próximo capítulo, daremos enfoque a Saturno em Virgem.
4. SATURNO FERAL
Vimos no capítulo anterior a importância de Júpiter para compreender a dinâmica “extra-oficial” que cobre parte relevante da economia chinesa. Saturno, também em signo de Terra [Virgem], permitirá novas considerações sobre a vida e as relações de trabalho na China. Novamente peregrino neste signo; os próximos anos serão de grande valia em observações neste sentido.

Como pudemos perceber, Saturno não faz aspectos maiores com os demais planetas e muito menos com os ângulos. Esta é uma ocorrência pouco discutida nos debates e interessante de ser abordada. Com base na definição de “planetas ferais” de Morin. O astrólogo argentino Adolfo Gerez reflete sobre esta condição, analisando os mapas de 16 personalidades e da própria Argentina, incluindo de Einstein a Marilyn Monroe, passando por FH e Fernando De la Rua.
A caracterização de “feral” para um planeta sem aspectos principais, evoca justamente a idéia de “fera”, ou como diz o nosso velho dicionário, “alguém que fugiu da domesticidade e voltou à vida selvagem”. Define Morin:
"Si un planeta fuerte no está conectado con otro por conjunción o aspecto, se dirá que está "ferale" y actuará con más pureza según su propia naturaleza, sobre todo si está en su domicilio. Y todo planeta ferale produce algo insólito, bueno o malo según la naturaleza del planeta. Por ejemplo: Saturno ferale en la Casa 1 da un ermitaño o monje."
Ora, justamente por sua presença “insólita” num mapa, o planeta sem aspectos (feral) adquire importância enquanto ponto focal das análises de uma carta. No caso da China, temos na própria descrição uma ótima oportunidade de refletir sobre o assunto.

Saturno, o regente do Ascendente, é justamente o planeta feral. Dispositor da Lua, ele envolverá diretamente -ou melhor, “discretamente”- a condição do povo e da própria China (Ascendente). Este é uma constatação muito importante. Se tomarmos como evidente o fato de que a conjunção entre a Lua e o Ascendente explicita o tamanho da população chinesa e a revolução “em nome do povo” e posição de Saturno na casa VII sugere um deslocamento do povo em relação ao centro das decisões. Afinal, a Revolução é o Partido. Esta é uma sutileza interpretativa que poderia passar desapercebida caso colocássemos em segundo plano a condição feral.
Também dispositor da casa XII, Saturno governa todas as reflexões que expus acerca da “economia informal” chinesa. Neste caso, revelando a permissividade ou mesmo o incentivo do Estado na cópia e na pirataria. A natureza “observadora das regras” de Virgem aqui, faz corpo mole e dribla para justamente assegurar o desenvolvimento industrial e econômico (Vênus em Escorpião sextil Júpiter em Capricórnio). Por outro lado, Saturno encontra-se na casa VII, um ponto importante na observação das parcerias comerciais. A China penou para entrar na OMC -principalmente pela pirataria- e sua inserção no comércio e finanças globais é totalmente “insólita”.

Outro motivo que impediu um ingresso na OMC mais antecipado foi exatamente os problemas com a escravidão e as condições de trabalho na China. Virgem, um signo totalmente voltado para as questões de trabalho, caracterizando uma revolução comunista que, porém possui um gigantesco exército reserva de mão-de-obra que trabalham para... multinacionais!
Por ser regente do Ascendente e dispositor da Lua, Saturno feral tem íntima relação com a questão populacional chinesa, e de sua inobservância até 1978 e posterior controle nos anos seguintes. Aliás, é em 1978, quando Saturno volta à sua posição original, é que a Revolução reencontra o controle sobre si mesma e faz o projeto de nação da China começar realmente a andar de modo mais dinâmico e pragmático.
A partir de 1979, quando é implementada a política do “filho único”, o governo da China começa a exercer um controle rigoroso da natalidade, tencionando diminuir ao máximo o nascimento de mulheres e assim frear o ritmo de crescimento demográfico de uma população que conta hoje com mais de 1.3 bilhão de pessoas.
Como disse em outras ocasiões, meu interesse astrológico no caso chinês teve origem na constatação da iminência do retorno de Saturno à sua posição natal, em Virgem, à semelhança da pesquisa que fiz sobre Israel e o retorno de Saturno em Leão, dois anos atrás.
Quando a política do filho único tem início, Saturno e o Nodo Norte faziam uma conjunção no signo de Virgem, exatamente sobre Saturno radical da China. No mapa progredido, Saturno e o MC quadravam entre si. Note que este era o primeiro retorno de Saturno da nova China.
Adolfo Gerez diz que quando um planeta se encontra em estado feral
tenemos un planeta que actúa sin modificaciones y entonces según Eugenie Moore, termina teniendo un comportamiento "uraniano" de "encendido y apagado".
Se alguns líderes locais dizem que o controle da natalidade é um sucesso porque impediu o nascimento de 300 a 400 milhões de novos bebês, pesquisadores indicam que o que se deu foi uma verdadeira catástrofe. Esquadrões do aborto realizam batidas de madrugada em casas de suspeitas de engravidar ilegalmente e as crianças que chegam a nascer neste tipo de situação não têm direito à escola, assistência médica ou outros benefícios sociais. As meninas são socialmente desprezadas e estigmatizadas [Virgem], uma característica cultural que, por sua vez, está enraizada à própria história da China. De acordo com estatísticas oficiais, 97,5% de todos os fetos abortados são femininos. Muitos pais não registram suas filhas e as escondem, ou então vendem-nas para casais estéreis, tornando-as assim invisíveis para as autoridades.

O resultado é um desequilíbrio crônico nas populações feminina e masculina. Já acontece de milhões de chineses das áreas rurais não conseguirem encontrar uma esposa (Saturno está na casa VII). O que vem ocorrendo, há quase 30 anos, é um verdadeiro infanticídio feminino. Na tentativa de minorar o problema, o país proibiu que os exames pré-natais indiquem o sexo do bebê. Em 2001, o mundo ficou chocado com uma menina recém-nascida encontrada morta numa lata de lixo.
5. ÉRIS CHINESA

No momento, um considerável número de astrólogos tem atribuído a Éris um papel na co-regência sobre Libra. Uma fonte paralela de sentido para a natureza libriana se desvelaria mais facilmente com o mito de Éris, sentido este que residiria justamente no fator antagônico contido na cúspide da casa VII, o Descendente. Longe de dar por resolvida a questão - que ainda deve durar alguns anos -, gostaria de levantar, despretensiosamente, algumas possibilidades envolvendo esta teoria.

Éris, representação mítica da discórdia, é um astro com uma órbita longuíssima. No Zodíaco, está em Áries desde a década de 20 e lá permanecerá por mais quarenta anos. Como a China moderna tem Sol em Libra (e Vênus exilado em Escorpião), seria interessante observar Éris como forma de dar prosseguimento aos debates. Convém lembrar ainda que Mercúrio, Netuno e o Nodo Sul também se encontram no signo da Balança. Não é à toa que a China é um caso excepcional para análises sobre Éris: o país tem Sol em oposição exata a ele.
Na mitologia grega Éris, que corresponde à deusa romana Discórdia, é conhecida principalmente por ter colaborado de modo decisivo para que a Guerra de Tróia eclodisse. O famoso pomo da discórdia que envaideceu Juno, Palas e Vênus e colocou Páris diante de uma escolha que teria perigosas conseqüências, é caracterizado, sobretudo, pela idéia de “divisão”: portanto, a imagem de Éris está inevitavelmente vinculada a rivalidades e embates, afinal, trata-se da companheira de batalhas de Marte.
Todavia Fernando Fernandes, num ensaio sobre o tema, aponta que “o aspecto mais importante do mito de Éris não diz respeito ao comportamento da deusa, e sim de Páris, que simboliza, aqui, o ser humano que se vê subitamente retirado de seu contexto familiar e jogado em outro cenário, onde será obrigado a tomar decisões para as quais talvez não esteja preparado”.
Para pensarmos em possíveis analogias a respeito da oposição chinesa entre Sol e Éris, é preciso voltar no tempo.
Os 300 anos que antecederam a Revolução Chinesa foram de completa submissão a agentes externos. Primeiro, os chineses foram dominados pelos manchus, depois pelos europeus e finalmente pelos japoneses. Não é nenhum exagero dizer que, neste período, o país foi massacrado, espoliado e humilhado. Um quadro que certamente teve como uma das causas principais o longo isolamento voluntário, já que a China sempre evitou e desprezou a influência cultural externa. Num mundo aceleradamente integrado após as grandes navegações do séc. XVI, isto gerou “atraso” e graves vulnerabilidades para a nação mais populosa do mundo. Afinal, a lógica colonial e imperialista que estava em curso via na China oportunidades tentadoras. Esta fase foi traumática.
A invasão japonesa entre 1937-45 tornou a China uma das maiores vítimas da 2ª Guerra e, por outro lado, fortaleceu o nacionalismo chinês. A capitulação do Japão e a posterior vitória do Exército Vermelho abriram caminho para que uma nova ordem emergisse no país. Nela, os erros e as feridas do passado eram algo a ser superado, mas esquecido jamais. A nova realidade chinesa forçava uma inserção mais profunda no dinâmico campo das relações internacionais, algo que a China sempre evitou –ter de se misturar com os “bárbaros”. Anos depois, a China praticamente isolou-se do mundo. Hoje, o crescimento dinâmico da economia chinesa coloca o país no centro das mais importantes questões globais. Este pêndulo entre inserção e isolamento pode ser um dos possíveis desdobramentos da oposição entre Sol em Libra e Éris em Áries.
Fernando Fernandes sustenta ainda a teoria de que “a oposição é uma espécie de aspecto ‘natural’ para Éris, na medida em que confronto e ampliação de horizontes pela mudança de perspectiva são conceitos inerentes à natureza deste planeta (grifos meus). Oposições de Éris não são necessariamente mais difíceis do que os aspectos fluentes, já que sua principal manifestação se dá através da exacerbação da necessidade erisiana de fazer escolhas dentro de contextos ampliados”.
Ora, a China emergiu como um novo país ganhando destaque no cenário internacional através da disputa entre os dois blocos que pontuavam a Guerra Fria. Incondicionalmente, o país viu-se diante de uma acirrada luta -da qual teve de participar-, aderindo ao lado soviético. Seu peso, nunca desprezado, adquiriu entretanto um valor infinitamente maior a partir de então.
Baseando-se em estudos de caso a respeito de Éris, Fernando Fernandes chega à conclusão provisória de que os aspectos tensos provavelmente indicam alguma “resistência ou falta de talento para aproveitar oportunidades em novos cenários”. Não devemos nos esquecer, contudo, que para o autor as oposições envolvendo Éris, especificamente, não envolvem necessariamente as “dificuldades” tradicionalmente contidas nesta qualidade de aspectos.
Entre 1949 e 1955, a oposição de Éris ao Sol, que já era partil, se intensificou. Como vimos acima, é provável que Éris indique questões relativas a condições envolvendo mudança de ambiente e de perspectivas. A vitória de Mao e do ELP não representou uma simples troca de grupos no controle do poder, mas, antes, um novo país, uma nova ordem interna e uma nova forma de inserção no cenário internacional. De acordo com as ambições do projeto revolucionário chinês, desafios inerentes a uma situação inteiramente nova –tanto no plano interno como no externo- teriam de ser assumidos. Em princípio, a teoria de que nas oposições envolvendo Éris exista uma natureza que colabore para uma assimilação positiva de suas características parece estar certa: é durante o período da intensificação da oposição de Éris ao Sol natal da China moderna que o país lança as bases de seu projeto revolucionário, avançando na coletivização da agricultura, na industrialização de sua economia, na criação de uma estrutura política e burocrática e na aliança com a União Soviética.

Em outubro de 1951, todavia, houve uma conjunção de Júpiter a Éris e de Saturno ao Sol da China. Um mês antes a China anexara o Tibet. A ocupação chinesa foi marcada pela destruição sistemática de mosteiros, pela opressão religiosa, pelo fim da liberdade política e pelo aprisionamento e assassinato de civis em massa. Ao governar o Tibet, as autoridades chinesas comunistas introduziram a reforma agrária e reduziram significativamente o poder das ordens dos mosteiros, apesar da forte oposição do povo tibetano. Temos, nesta época, uma intensificação da oposição de Éris ao Sol que, acompanhada de uma oposição de Júpiter e Saturno, levava à ocupação e incorporação de território e povo alheios. Um ano antes, a China entrava na Guerra da Coréia mudando decisivamente os rumos do conflito.
No início de março de 1953 dá-se a morte de Stalin, quando a oposição era matematicamente precisa. Os anos após a morte de Stalin viram prosseguir o intercâmbio com a União Soviética. É quando Éris começa a afastar-se gradualmente da oposição ao Sol e surgem as famosas “campanhas” de Mao, dando seqüência à idéia de uma “revolução permanente”. Em tese, a diminuição da intensidade da oposição entre Éris e o Sol estaria associada ao isolamento progressivo. Em 1956, Saturno estava sobre o MC (busca de maior autonomia nas decisões e sucesso relativo sendo atingido) e Urano na cúspide da casa VII (mudanças envolvendo parcerias) marcavam o caminho da Revolução até ali. A partir de então, o quadro iria alterar-se drasticamente, com a China tornando-se cada vez mais estranha ao mundo e o mundo estranho à China.
Como procurei demonstrar acima, o fim da oposição exata de Éris progredida ao Sol radical da China moderna marcou, junto com outros ângulos planetários, uma mudança de rumo na China, tanto no plano interno como externo. A partir de então, haverá uma série de campanhas confusas, além do afastamento gradual da União Soviética.
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